O movimento metodista nasceu em 1739 quando foram constituídas as primeiras sociedades que em verdade eram grupos cristãos sob a liderança de um guia leigo. Quem inspirou o movimento foi John Wesley - um ex-pastor anglicano - protagonista da segunda fase da Reforma e criador daquele que se tornou um dos maiores movimentos protestantes atuais. O movimento metodista nasceu no seio do anglicanismo e com ele coexistiu por muito tempo sem rupturas. Hoje o metodismo no mundo é mais difundido do que o anglicanismo.
O metodismo precedeu os tres grandes movimentos que convulsionaram o mundo ocidental moderno: a guerra de independência Americana - 1775-1783, a revolução industrial da Inglaterra - 1760-1830 e a revolução francesa – 1789. Preanunciando as mudanças, acompanhando-as, mas mantendo, entretanto, a própria identidade.
O metodismo, desde sua origem, é um movimento popular que zela pelo melhoramento do homem na sua plenitude, uma vez que é impossível que cada individuo situe a si mesmo em relação à salvação, ao amor de Deus e a irmandade com o Cristo, se não se aprimora em relação a estes aspectos a ponto de se tornar apto a pregá-los ao seu próximo com a finalidade de contribuir para o estabelecimento de uma sociedade que respeite a dignidade, o valor e os direitos individuais. Desta forma, o metodismo pode ser considerado uma igreja com as características de uma sociedade, ou uma sociedade com as características de uma igreja.
Wesley endereçou sua atenção para as classes mais pobres, não aos privilegiados, e seus cenários, no inicio, estavam cheios de mendigos, de marinheiros e prostitutas. Entretanto, logo depois, o movimento se tornou burguês e passou a atrair cada vez mais empreendedores e industriais. Não podia ser diferente, porque o lema de Wesley era conhecido: Ganhe tudo o que você puder, economize tudo o que você puder e presenteie tudo o que você puder.
A sobriedade dos metodistas os levou inevitavelmente a um melhoramento econômico e este melhoramento a um certo desequilíbrio conceitual entre o elemento social, o elemento espiritual e o elemento moral. Mesmo sendo um credo de supostos diversos, tornou-se a religião da classe media conservadora.
Em 1789 wesley legalizou e distribuiu um documento que regularizava e perpetuava a constituição das sociedades metodistas. Foi constituído um corpo de 100 pastores - Legal Hundred - nomeados pessoalmente por ele, aos quais delegou autoridade em termos de disciplina e de administração. Estes 100 pastores representavam o órgão que governava o credo metodista.
Na conferencia de 1836 decidiram que seus pregadores deveriam ser ordenados - como eram os pastores das demais religiões - e estabeleceram as condições, no que diz respeito a estudos e tirocínio, para a aceitação dos candidatos. Passariam a ser ordenados depois de confirmarem, através de sua atuação e comportamento, a aceitação da organização, a doutrina e a disciplina metodista.
Feito isso, nomearam alguns pregadores para a administração dos sacramentos na Escócia e na América. A igreja metodista tornava-se assim autônoma em relação à igreja da Inglaterra, continuando a manter com ela, porém, um bom relacionamento.
A decisão a respeito do principio de autonomia em relação à igreja anglicana, foi tomada na conferencia de 1775, mas na pratica a separação foi muito mais lenta, mesmo porque, em 1799, houve uma tentativa de reaproximação. A célula que sempre originou as igrejas metodistas - “wesleyana” - sempre fora uma reunião onde um grupo assumia a tarefa de dar consistência a uma nova sociedade – igreja - e as sociedades eram agrupadas em áreas com um ministro que as superintendia através de uma conferencia trimestral na qual participavam os membros eleitos imitando um órgão administrativo.
As áreas eram, por sua vez, agrupadas em distritos comparáveis com as dioceses anglicanas com um ministro na função de presidente e um sínodo que se reunia duas vezes ao ano. A conferencia, finalmente, era composta pelos 100 pastores e representantes de todas as igrejas metodistas wesleyana na Grã Bretanha.
Na Irlanda a igreja passou a contar com uma conferencia própria que se reunia anualmente, organizada com um presidente – que era um pastor, um vice-presidente – que era um leigo e um secretario – que era outro pastor. Estes eram eleitos anualmente. A conferencia se articulava em duas sessões: pastoral - “Ministerial Session” e plenária - “Representative Session”, compostas por 690 membros -pastores e leigos em numero igual - que eram eleitos pelos sínodos dos distritos.
O metodismo conheceu sua fase de máxima expansão ao longo da segunda metade de 1800 graças ao aumento do numero de adeptos - empresários e da pequena burguesia - mas sobretudo pelo sucesso da típica evangelização que era realizada em todas as camadas da sociedade, seja através de campanhas publicitárias, como pela atuação pessoal dos pastores.
Por meio dessa atuação o metodismo conseguiu sedimentar-se, consolidar-se e crescer sem se chocar com nenhum dos muitos nacionalismos políticos e religiosos existentes no continente europeu e em todas as demais partes do mundo, chegando a ser uma grande igreja missionária sustentada pela generosa contribuição dos fieis - através das coletas organizadas periodicamente. O homem responsável pela historia de sucessos do metodismo no alem mar foi Thomas Coke, secretario de Wesley e seu principal lugar-tenente.
Na América George Whitefield conseguiu dar ao movimento um novo aspecto, e este causou o fim do puritanismo e o inicio do metodismo. A situação social na América diferenciava-se acentuadamente da que era vivida na Europa, por isso o metodismo teve que se adaptar às exigências locais - estas exigências eram predominantemente inglesas porque eram inglesas as primeiras grandes colônias neste país - sem se preocupar demasiadamente com as tradições. Acentuaram-se mais os aspectos morais em detrimento dos dogmáticos - algo que a própria sociedade almejava – tendo em vista a fase de periculosidade e instabilidade que era vivida.
O litoral do Novo Mundo havia começado a ser explorado a partir do século XVI pelos navegadores espanhóis e franceses, e muitos ingleses emigraram para este país a partir do inicio do século XVII, onde fundaram, de 1607 a 1733, treze colônias: Virginia, Massachusetts, New Hampshire, Maryland, Conecticut, Rhode Island, Carolina do Norte, Carolina do Sul, New York, Delaware, New Jersey, Pensilvânia e Geórgia.
Estas colônias entraram em conflito com os estabelecimentos franceses sediados no Canadá e na Louisiana, ganhando a causa através do tratado de Paris de 1763. A Inglaterra, no entanto, pretendia continuar acentuando a sua política colonial exclusivista, mas a resistência dos colonos, sustentada pelo primeiro congresso continental reunido em Filadélfia em 1774, teve como conseqüência a guerra da independência
Com esta guerra - 1775-1783 - o metodismo passou por uma fase difícil. Seus ministros e pregadores foram obrigados a voltar para a Inglaterra enquanto os fieis passaram a ser perseguidos da mesma forma que o eram os pacifistas, os quaquers, os menonitas e moravios. Esta realidade demonstrou a Wesley que era necessário tornar o movimento metodista Americano independente do Inglês.
Com o nascimento dos Estados Unidos da América como entidade política e territorial em 4 de julho de 1776, nasceu também uma nova igreja metodista independente e autonomamente organizada: A igreja metodista episcopal.
O metodismo americano se apresentou desde o inicio como uma corporação liderada por um bispo que presidia a conferencia e nomeava ou suspendia os pregadores. O trabalho de evangelização, desde que teve inicio, foi muito forte, mas as obras sociais, a cultura e a informação, representaram elementos que decididamente favoreceram o avanço desta religião.
A igreja metodista episcopal, por exemplo, proibiu a seus seguidores de manterem escravos - a mesma proibição que foi cunhada na Constituição dos EUA em 1784 - e montou a primeira editora religiosa. Desta forma, os predicadores que atravessavam a cavalo as grandes extensões territoriais americanas eram os únicos que levavam e utilizavam livros na sua obra de evangelização e conversão.
Os negros americanos que representavam 10% da população – que na época era formada por aproximadamente 40 milhões de imigrantes europeus - haviam sido levados para o sul como escravos mesmo se possuíam os mesmos direitos de cidadania dos brancos. Maltratados pelos patrões e perseguidos até a morte quando fugiam, encontraram na igreja metodista um respaldo espiritual, material e político que os fortaleceu. Logo passaram a freqüentá-la como fieis.
O metodismo americano continuou realizando com eficiência o trabalho que até então havia sido realizado pelos ingleses, e o crescente desejo de liberdade política deste povo, acompanhado pelo espírito de tolerância religiosa existente - alem de todos os demais aspectos - permitiram que as missões metodistas se expandissem acentuadamente entre 1876 e 1919. De fato, a coragem dos pioneiros, a iniciativa individual, a austeridade dos costumes e a necessidade de autonomia local baseada na responsabilidade individual, em paralelo ao reconhecimento e aceitação de uma autoridade central interessada no desenvolvimento democrático do país, foram os elementos constitutivos da estrutura político-social-religiosa desta nova nação.
Os pregadores.
Os pregadores eram uma espécie de cavaleiros errantes que a sos, ou com um aprendiz, partiam à procura de almas que tivessem a necessidade daquilo que a palavra de Deus, e a fraternidade humana, podiam oferecer quando a fé no Cristo era compartilhada. Deslocando-se de uma fazenda à outra sem preferências étnicas, mesmo quando não havia estradas ou ferrovias, encontravam freqüentemente pessoas rudes, não eruditas, brutas, velhos revolucionários, ateus endurecidos etc., que muito dificilmente permitiam que lhe fosse transmitido o conjunto doutrinário. Só noções extremamente simples do tipo: a graça de Deus é oferecida a todos pelo Cristo; o homem é livre para aceitar Deus ou recusá-lo; se o aceita Ele lhe propõe que se reconheça pecador, que quebre o vinculo com o passado e aceite o dom de Deus para progredir no caminho da perfeição.
Perfil doutrinário.
O metodismo é um movimento cristão ao qual são estranhos os interesses pela reflexão teológica e o misticismo: É caracterizado, segundo os metodistas, por uma extrema clareza através da qual se posta diante de todas as situações da vida.
Para os metodistas, as dificuldades sociais e religiosas representam um problema de consciência individual, problema que se configura essencialmente por uma pergunta de caráter religioso, uma pergunta cuja única resposta está inserida no relacionamento pessoal que cada um tem com Deus. Porque o homem, em síntese, segundo Paulo, só tem um problema que está nele mesmo.
• Romanos 1:23-26 = Mudaram a majestade de Deus incorruptível em representações e figuras de homens corruptíveis, de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus os entregou aos desejos de seus corações, à imundície, de modo que desonram entre si os próprios corpos. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. - Paulo repete o que os sacerdotes hebreus afirmavam ao seu povo, os que em suas origens, ou depois durante o exílio na Babilônia, se prostravam diante de ídolos pagãos.
• Romanos 8:1-4 = De agora em diante, pois, já não há nenhuma condenação para aqueles que estão em Jesus Cristo. A lei do Espírito da Vida me libertou, em Jesus Cristo, da lei do pecado e da morte. O que era impossível à lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, o seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça, prescrita pela lei, fosse realizada em nos, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o espírito.
• Romanos 8:18-19 = Tenho para mim que o sofrimento da presente vida não tem proporção alguma com a gloria futura que nos deve ser manifestada. Por isso, à criação guarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus
Partindo da afirmação de Paulo, ou seja, que o homem é um pecador perdoado e a criação aguarda a sua manifestação, se forma um pensamento social muito interessante: se a criação - que é o quadro dentro do qual o homem vive - tem a esperança de ser libertada, mais do que ela é a sociedade que merece ser libertada porque esta é constituída pelo próprio homem. Reflete-se dessa forma a primeira característica que é a corrupção, aguardando a manifestação da segunda característica que é a redenção. Desse modo é demonstrada a universalidade do pecado e a universalidade da salvação.
O metodismo sublinha ainda a gratuidade da misericórdia divina que como conseqüência oferece uma dupla mutação comportamental: Mutação da atitude espiritual do crente - testemunho da obra do Espírito Santo, e mutação do seu próprio comportamento prático que é um instrumento de progressão social.
O metodismo afirma que a salvação do homem só acontece através da fé, enquanto que a igreja católica diz que é através da fé, desde que o crente participe de todos os sacramentos.
Se Deus deseja salvar o homem, dizem, com certeza saberá se fazer entender por ele. Sobre este principio se baseia a teoria metodista da certeza.
O primeiro passo desta doutrina, no entanto, não é expresso pelo alto, mas acontece aqui em baixo, no sentido que o metodismo não acusa o homem com o seu pecado, mas prega o designo de Deus para que seja salvo, afirmando, ainda, que este pode ter a certeza da sua salvação, através do testemunho que o Espírito Santo dá ao espírito do homem.
O cerne da teologia metodista, assim sendo, não é o pecado que tornou o homem indigno de ser filho de Deus, mas á graça de Deus que restitui para aquele mesmo homem a filiação de Deus através da fé em Cristo.
Outro conceito da teologia metodista é o da perfeição cristã, que não deve ser entendida como uma nova condição, mas um novo poder. Quem aceita a graça de Deus e percorreu todo o caminho para se tornar crente, transforma-se em uma nova criatura que passa a viver e operar em uma nova conjuntura, completamente diversa e totalmente melhorada em relação à que vivia antes da sua conversão. É por isso que dizem que a pessoa renasce.
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