Existem razões para acreditar que a reforma protestante na Inglaterra não tenha sido fruto de um movimento religioso, mas que suas origens sejam políticos-institucionais, porque, em verdade, a reforma já havia sido cunhada alguns séculos antes quando, em 1353, Eduardo III promulgou uma lei cujo mérito era vetar a transferência dos assuntos que eram examinados pelos tribunais religiosos da Inglaterra, para a cúria pontifícia romana. Essa decisão se traduzia em uma grave perda para o erário papal. Proibia-se também pagar ao Papa o tributo de mil marcos de prata que havia sido imposto pela cúria romana nos tempos do rei Giovanni Senzaterra - 1199-1216. Posteriormente, como a igreja romana deixara na Inglaterra deixara de pagar as taxas que o Estado lhe cobrava, o rei, através do parlamento, começou a lhe confiscar os bens.
Durante o reinado de Henrique XVIII – 1491-1547 – o inicio do cisma anglicano é coligado ao fato que o rei Henrique VIII não conseguira obter da igreja de Roma a dissolução do seu matrimonio, solicitada porque sua esposa não conseguia lhe dar um filho homem para herdar o trono. O rei, aproveitando a insatisfação que reinava entre as fileiras do clero e dos leigos católicos ingleses contra Roma, procurou o arcebispo Cranmer de Canterbury a quem na pratica já havia transferido os poderes do papa, e dele conseguiu o divorcio de Catarina d´Aragona. O papa, quando soube do ocorrido, excomungou o rei, e este fez aprovar pelo parlamento leis que definitivamente rompiam os liames com Roma e submetiam o clero inglês à coroa. Mais uma vez a Inglaterra deixou de pagar os impostos anuais ao papa, azerou a jurisdição de Roma, dissolveu os mosteiros, confiscou os bens da igreja e tomou as providencias para eliminar toda e qualquer resistência interna. Feito isso, Henrique VIII através de um ato de supremacia se autoproclamou chefe da igreja inglesa.
Em 1539, percebendo que a reforma religiosa queria adentrar no seu país, Henrique VIII fez publicar seis artigos da doutrina anglicana - mesmo se estes não se diferenciavam muito da católica – e neles anunciava a pena de morte para quem viesse a negar a transubstanciação, que pretendesse mudar a comunão dos fieis e solicitasse o matrimonio do clero. Alem disso fez justiçar William Tyndale porque traduzira a Bíblia para a língua Inglesa.
Naturalmente a historia do divorcio havia sido só um pretexto: a causa verdadeira era estabelecer um processo de reivindicação da sua soberania, no seu país, sem nenhuma interferência exterior.
O surgimento da relação capitalista na Inglaterra do século XVI, exigia a urgente constituição de uma monarquia absoluta com o fim de acelerar a desagregação dos regimes feudais. Um importante instrumento de centralização destes poderes foi exatamente à reforma da igreja, porque através dessa a coroa conseguiu secularizar um terço de todo o solo da Inglaterra.
Por trás de toda esta maquinação estava também a necessidade de conseguir estabilizar as finanças do reino, devastadas pelas despesas bélicas ao longo dos cem anos de guerra com a França, ao longo dos quais o papado jamais se posicionara a favor dos ingleses. Quem adquiriu estas terras foram os “gentry” que posteriormente assumiriam responsabilidades fundamentais na historia da Inglaterra capitalista.
Convém notar que geralmente os papas jamais se opunham aos príncipes ou reis que desejavam se separar de suas esposas. Em relação a Henrique VIII a proibição do divorcio foi determinado pelo receio de magoar o parente mais importante de Catarina d´ Aragona, o imperador Carlos V, que naquele momento representava um indispensável baluarte contra a difusão do movimento luterano.
O cisma anglicano não encontrou na Inglaterra nenhuma forte resistência eclesiástica - faz exceção alguns religiosos franciscanos e certosinos, alem do bispo Fisher. A vitima mais ilustre foi o grande Conselheiro do rei, Tomas More, que, mesmo disponibilizando-se para assinar o “Ato” para a sucessão da descendência de Ana Bolena - a segunda mulher do rei - refutava a forma como Henrique VIII havia se proclamado chefe da igreja. Queria que para isso fosse convocado de um concilio nacional.
Não houve resistência simplesmente porque o comportamento corrupto da sede pontifícia romana para os súditos ingleses, já era suficiente para legitimar a constituição de uma monarquia, mesmo se absolutista. Alem disso, Henrique VIII, havia garantido ao clero, e a todos os fieis, que nada, em relação ao tradicionalismo católico, teria sido modificado no nível dogmático ou sacramental. Antes disso, o próprio rei havia escrito, em colaboração com Moro, alguns panfletos contra o luteranismo.
A oposição de Moro ao luteranismo foi interessante também em outro aspecto: pela primeira vez na historia ele apelou oficialmente ao principio da objeção de consciência. Pediu para discordar por motivos pessoais - de natureza religiosa - do ato imperial de Henrique VIII, sem que isso representasse uma oposição política à monarquia. Naturalmente, se o rei o tivesse deixado livre, ele se teria retirado à vida privada. Evento que não ocorreu porque o rei refutou-se a distinguir nele o homem do cidadão, ou melhor, o crente do político.
Assim sendo, a igreja anglicana nasceu como igreja católica cismada, conservando do catolicismo a organização e a sucessão episcopal, além dos sacramentos, do cerimonial e dos testos canônicos.
Por outro lado, a igreja anglicana era a síntese de tendências relativamente diversas entre elas: o absolutismo da monarquia, o nacionalismo da burguesia inglesa emergente que sabia promover relações sociais do tipo capitalista, e o moderado reformismo do tipo erasmiano, do qual o próprio Moro se sentia um representante.
As influencias luteranas e calvinistas do continente europeu, bateram novamente as portas da Inglaterra algum tempo depois. A Inglaterra chegara às mesmas conclusões da Alemanha sem trilhar o caminho da especulação teológica, mas o mais prosaico, que no tempo revelar-se-ia muito mais eficaz.
As novas doutrinas tendentes ao calvinismo - 42 artigos - foram introduzidas por Eduardo VI -1547-1553 - um filho que Henrique VIII tivera no seu terceiro casamento. Rei Eduardo aprovou em 1549 o “livro das orações publicas” que o arcebispo Cranmer e outros teólogos haviam elaborado, e este mesmo arcebispo introduziu na Inglaterra um tipo de Bíblia, o “Book of Common Parayer”, ainda hoje utilizado, que compreende, depois de eliminar todos os elementos supersticiosos, a liturgia do domingo e das festas, o oficio matinal e o noturno cotidiano e o ritual dos sacramentos.
A estes acontecimentos procurou se opor à católica Maria Tudor, 1553 a 1558 - chamada à sanguinária - filha de Catarina d´Aragona, mas sem obter grandes resultados mesmo se os anglicanos condenados durante o seu reino foram mais numerosos dos católicos condenados à morte pelos anglicanos ao longo do século seguinte. Foi nesta ocasião que muitos protestantes migraram para além do oceano.
Neste período, por baixo houve 800 fogueiras e 12 mil sacerdotes que se haviam casado durante o reinado de Eduardo, foram depostos. Entre os justiçados ouve a inclusão do bispo Cranmer, do predicador Hugh Latimer e do bispo de Londres Nicholas Ridley.
Com a subida ao trono da rainha Elisabeth I - 1558-1603 - filha de Ana Bolena, a segunda esposa de Henrique VIII, é restabelecido o “Ato de Supremacia”, o “Ato de Uniformidade” e o Parayer Book da época de Cranmer. Depois, em 1562, a coroa apoiou os “39 artigos de fé” do arcebispo Parker - uma reformulação dos 42 do rei Eduardo - que, aprovados pelo Parlamento em 1571, deram a consistência definitiva ao anglicanismo.
Foi Elisabeth I que assumiu o titulo, até agora existente, de “Supreme Governor” - supremo regente - em outras palavras, de “protetora da igreja” e “suprema governadora das causas seja eclesiásticas como cíveis no reino”.
Com o Ato de Uniformidade de 1559, afirmou-se a independência da Inglaterra em relação ao Papado romano e manteve-se a continuidade com a igreja antiga através da adesão as confissões de fé, as decisões dos primeiros quatro concílios ecumênicos e os princípios fundamentais da reforma, especialmente em relação aos artigos que versavam sobre a justificação pela fé, e a respeito das boas obras da confissão luterana fixada em Augusta no ano de 1530. Declarando ainda que a Bíblia era a suprema norma de fé, e por conseguinte, nenhum outro artigo de fé poderia ser aceito se este não pudesse ser justificado pela Bíblia.
A partir deste momento os sacerdotes e os funcionários públicos passaram a prestar juramento sobre os Evangelhos diante da rainha ou da sua autoridade. Quem se recusava perdia seu cargo, mas sem ser acusado de traição como acontecia antes.
Os 39 artigos prescreviam uma estrutura eclesiástica centrada sobre os bispos, nomeados pelo rei, e a partir disso, o uso de cerimônias, rituais, liturgia e paramentos do tipo católico, sob a teologia do tipo calvinista moderado. Exemplificando: a tradição não era negada, mas estava subordinada à Bíblia. A força de salvação da igreja não é negada, mas a fé pessoal era considerada mais importante, enquanto que passava a ser refutado o culto à Maria, aos santos, as relíquias, aos ícones e todas as formas de sufrágio aos defuntos, bem como o dogma da transubstanciação. Tornara-se simpático, entretanto, o conceito de absoluta predestinação dos calvinistas, mas também o humanismo de Erasmo.
As demais características permaneceram análogas as de todas as confissões protestantes: o matrimonio dos sacerdotes. Á negação as indulgências do purgatório e ao serviço litúrgico na língua local. Esta igreja, hoje, não tem nenhuma dificuldade em admitir o divorcio, o aborto, contracepção, relações pré-matrimoniais, a aceitação dos gays e a nomeação de mulheres para o sacerdócio.
A diferencia mais substancial em relação às demais igrejas reformadas está no fato que a igreja anglicana é uma “igreja do Estado”, ou melhor, protegida pelo Estado, e as “coisas” eclesiásticas são consideradas negocio do Estado. Assim sendo, em teoria, o chefe desta igreja poderia até ser um não anglicano.
Os dois arcebispos mais importantes são os de Canterbury e de York, sendo que todos eles reconhecem o rei como supremo governante visível da igreja, com poderes político-juridicos, mas não doutrinais.
Em 1570, em Roma, o papa Pio V - que nenhuma ascendência mais possuía sobre o reino da Inglaterra - acreditando que estava cumprindo seu dever como “servo de Deus”, com a bolla “Regnans in Excelsis”, excomungou Elisabeth I com a desculpa que era filha ilegítima de um divorciado, e exonerou seus súditos do dever de obedecê-la. Por seu lado, em 1571, a rainha faz aprovar o “Act against Bulls from Rome” através do qual passava a ser determinado que ninguém, no reino, poderia reconhecer, referir-se, respeitar ou divulgar aquelas leis que no passado haviam servido para manter o poder papal na Inglaterra. Desta forma, Elisabeth, que mais uma vez havia terminado com os mosteiros e secularizado seus bens, fez do poder papal romano uma lembrança do passado.
Em 1581 o Parlamento Inglês aprovou uma nova legislação penal que nascera para afastar o perigo dos padres seminaristas “Seminary Priests” que se havia manifestado no ano anterior. De fato, em 1580, haviam desembarcado na Inglaterra os primeiros jesuítas com o objetivo de reconduzir o povo inglês ao catolicismo.
O fenômeno era coligado ao movimento dos “Seminary Priests” cuja origem remontava ao ano de 1568 quando, um certo William Allen, um dos mais astutos católicos de seu tempo, abrira um seminário na cidade de Douay – Flandres, região entre a França e a Bélgica. No começo, parecia ser uma escola dedicada à educação da juventude católica Inglesa exilada, mas no tempo, se transformou em um seminário com o escopo de preparar padres para, quando as circunstancias estivessem favoráveis, auxiliar a restauração do catolicismo romano na Inglaterra. Esta estratégia, em síntese, era um plano acordado entre o Papa e os países católicos da Europa para derrubar a reforma anglicana.
A resposta do Governo não tardou. Em 1581 foi aprovado o “Act against reconciliation to Rome”. A nova legislação, além de enquadrar aqueles religiosos como traidores, estabelecia multas altíssimas para os que não aderiam à igreja reformada, para os que freqüentavam igrejas católicas e para todos aqueles que procuravam levar as massas a se insurgir contra a rainha.
Apesar desse esforço, quatro anos depois, em 1585, o movimento no sentido de derrubar o anglicanismo ainda persistia, mesmo se de forma mais velada. Aprovou-se, então, o “Act against Jesuits and seminary priests”, estabelecendo que todos os eclesiásticos - incluindo os jesuítas - que haviam sido ordenados ou que tinham recebido qualquer nomeação ou investidura de Roma, não podiam mais residir no país, e assim sendo, deviam abandonar o reino imediatamente. Se isso não acontecesse, seriam acusados de alta traição e submetidos às penalidades previstas na legislação vigente. Para estancar de vez o problema, os que fossem flagrados escondendo ou protegendo consciente ou inconscientemente os eclesiásticos condenados a abandonar o país, seriam enquadrados como “Felon” - traidores - e, sem poder invocar qualquer beneficio, teriam que se sujeitar as penalidades cabíveis.
Como traidores, ainda, seriam também enquadrados todos aqueles que, no futuro, viessem a freqüentar seminários ou estudar em escolas jesuítas no exterior e, retornando à Inglaterra, se recusassem a prestar juramento de submissão à rainha e as suas leis.
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