João Calvino (Jean Cauvin), nasceu no dia 10 de julho de 1509 em Noyon, na Picardia, França, filho de Gerard Cauvin e Jeanne Le Franc.
Seu pai, procurador da catedral de Noyon e homem de confiança do bispo Charles de Hanguet, conseguiu através de seu relacionamento uma bolsa de estudo para seu filho Jean. Esta lhe permitiu estudar primeiramente em Noyon. Depois, ao se transferir com a família para Paris, no colégio de la Marche, e sucessivamente no ginásio de Montaigu onde estudou artes liberais e teologia, tornando-se, depois disso, um admirador de Erasmo - Desiderius Erasmus Roterodamus - 1469-1536 - o humanista Holandês de expressão Latina e autor de "Colóquios" e "O elogio da loucura" obras nas quais se propõe definir um humanismo cristão despido de qualquer polemica religiosa.
Em 1528 Calvino deixou os estudos de teologia para se inscrever na faculdade de direito da universidade de Orleans, transferindo-se logo depois para Bourges, na faculdade indicada por Marguerite de Angoulême, irmã do rei da França Francisco I, e rainha de Navarra.
No ano de 1531, Gerard, pai de Jean, acusado de manusear a contabilidade financeira a seu favor, depois de ser excomungado, morreu, e a família teve que assumir o pagamento de seus débitos para conseguir autorização para enterrá-lo “na terra bendita”.
Depois da morte do pai, Calvino retornou a Paris e se inscreveu na academia “College Royal de France” e em 1532 publicou o seu primeiro trabalho: um comentário a “De Clementia”, uma obra do latino Sêneca.
Por volta de 1533, Calvino começou a desenvolver idéias protestantes e, segundo alguns autores, a pedido de seu amigo Nicolas Cop - reitor da universidade e defensor de conceituações luteranas e erasminianas - preparou o discurso de abertura do ano acadêmico que foi lido no dia de todos os santos. O clamor que a alocução provocou foi tão grande que obrigou o orador a fugir precipitadamente de Paris, e o autor, Calvino, a se fantasiar de agricultor e se afastar carregando uma enxada.
Depois de inúmeras peripécias, em 1534 Calvino foi para Nerac, no Bearn - viscondado francês que pertenceu às casas de Foix, de Albre e de Bourbon, depois reunido à França por Luiz XIII em 1620 - para encontrar Marguerite de Angoulême onde conheceu o humanista Le Févre d´Etaples.
De retorno a Paris, sem se dar conta que a cidade estava sendo agitada por uma campanha contra os protestantes movida pelo clero, porque haviam fixado cartazes contra a missa até na porta do quarto de dormir de Francisco I, fugiu novamente depois de perceber que muitos protestantes, acusados de heresias, estavam sendo queimados na fogueira. Chegou em Basiléia, na Suíça, em janeiro de 1535. Nesta cidade Calvino elaborou sua primeira grande obra: “La Christianae religionis institutio”, um compendio doutrinário cristão - publicado em 1536 - cujo prefacio era endereçado a Francisco I, rei da França.
Enquanto seu trabalho estava sendo estampado, Calvino, sob o pseudônimo de Charles d´ Esperville, foi para a cidade de Ferrara, na Itália, na corte de “Renata d` Este” - filha de Luis XIII da França - e grande protetora dos reformadores italianos, da qual se tornou guru espiritual. Depois viajou para a França para tratar de assuntos familiares.
Em julho de 1536, decidido a ir para Estrasburgo, foi obrigado a alterar sua rota devido às operações de guerra entre Francisco I, rei da França, e o imperador Germânico Carlos V. Sem alternativa foi para Genebra, na Suíça, onde conheceu o pregador Guillaume Farel, o responsável pela adesão da cidade à Reforma religiosa. Foi este teólogo que convenceu Calvino a permanecer naquela cidade.
Guillaume Farel e Calvino começaram a trabalhar no sentido de instalar um governo teocrático regulado pelas leis que este ultimo havia estabelecido em “Ordonnances ecclésiastiques” -ordenanças eclesiásticas - através das quais o controle e a disciplina eclesiástica passava a ser de responsabilidade dos pastores: as crianças deviam ser catequizadas e os cidadãos “indignos” deviam ser expulsos do território. A reação da cidade, no entanto, foi tão negativa que obrigou o conselho dos cidadãos a expulsar Farel e Calvino. Isso aconteceu no dia 23 de abril de 1538.
Enquanto Farel ia para Neuchâtel, Calvino, passando por Basiléia, foi para Estrasburgo a pedido dos reformadores Martin Bucero e Wolfgang Capito, para dirigir a igreja dos exilados franceses. Nesta cidade Calvino se casou com Idelette de Bure, uma viúva de um anabatista por ele convertido. Esta, em 1542 lhe deu um filho que faleceu em seguida e nove anos depois também morreu. Em Estrasburgo, em 1539, Calvino revisou e publicou a versão em latim da sua obra “La Christianae religionis institutio” e em 1541 a versão em francês.
Neste período, em Genebra, por não existir um guia espiritual, aconteciam coisas que seus habitantes consideravam inaceitáveis. Desta situação tentou se aproveitar o cardeal Jacopo Sadoleto, que, através de uma carta que endereçou ao conselho da cidade, atribuiu a culpa dos acontecimentos aos reformadores e ofereceu a solvência dos problemas através do retorno da igreja católica e da sua tradição secular.
Calvino, tendo sido cientificado a respeito, respondeu ao cardeal enviando a sua “Responsio ad Sadoleti epistolam”, texto através do qual fundava a que chamou a verdadeira igreja de Cristo pela palavra de Deus e não pelas tradições da igreja católica, resposta esta que satisfez os cidadãos de Genebra a ponto de, em 1541, convidá-lo a retornar aquela cidade.
Com o seu retorno, Calvino conseguiu que o conselho dos duzentos aceitasse a “Ordonnances ecclésiastiques”, a mesma que na primeira apresentação, através da revolta que havia provocado, levara o conselho a expulsá-lo com Farel no dia 23 de abril de 1538.
Desta forma, se por um lado o calvinismo pode ser responsabilizado pelo impulso e desenvolvimento das atividades comerciais, a ponto de ter favorecido a origem dos grandes bancos suíços atuais, do outro, seu sistema teocrático de rígido controle da moralidade nada tinha de democrático:
• Os pastores, escolhidos por outros pastores, obrigatoriamente deviam-se encontrar semanalmente para o estudo das sagradas escrituras.
• Os professores ou doutores, escolhidos pelos pastores, eram os responsáveis pela educação geral e pelo ensino das sagradas escrituras.
• Os diáconos assumiam a assistência aos pobres e aos enfermos.
• Os anciãos, em numero de doze, eram o centro do sistema calviniano. Responsáveis pela manutenção da disciplina, deviam controlar a moralidade da população, assim sendo, proibiram os bailes, os banquetes, os jogos de azar, a leitura de inúmeros livros, as festas, os espetáculos teatrais e em relação ao modo de se vestir o luxo passou a ser proibido. Este conselho devia ainda zelar pela participação obrigatória dos cidadãos aos cultos religiosos e relatar ao “consistório” a “Venerável Companhia” dos pastores, quem eram os pecadores, reconhecidos como tais, para que lhe fosse negada a comunhão.
• O consistório ou Venerável Companhia, formado pelos doze anciões e pastores, decidia a respeito de argumentos eclesiásticos, civis, sentenciava punições corporais, exclusão da comunhão, excomunga, condenação ao exílio e nos casos extremos condenava à morte.
Por outro lado o consistório se opunha freqüentemente ao conselho dos duzentos - a autoridade civil de Genebra - que não aceitava todas as sentencias, e estes choques deram origem a enfrentamentos que por pouco não desandaram em guerra civil
Em 1547 o consistório acusou e levou diante dos tribunais - por motivo de conduta moral - a esposa e o sogro de Perrin - mesmo sendo este o capitão geral da cidade - provocando, desta forma, uma reação do partido de Perrin contra os emigrantes franceses, maciçamente presentes na cidade e notoriamente amigos de Calvino, sobretudo quando, em 1548, estes conseguiram a maioridade nos conselhos dos cidadãos.
O braço de ferro continuou e em 1553, quando Perrin, eleito prefeito da cidade, tentou fazer com que um burguês excomungado - hostil a Calvino - chamado Berthelier, fosse reconduzido à comunhão, não só foi forçado a desistir de seu intento, mas o conselho dos duzentos aproveitou a oportunidade para retirar do consistório o poder de excomungar.
No dia 13 de agosto daquele mesmo ano, em Genebra, foi presos Miguel Servet, um médico antitrinitário, e Calvino aproveitou a oportunidade para tentar eliminar um perigoso dissidente que, se permanecesse livre, poderia ser muito útil a Perrin. Com este fim iniciou um processo que terminou por se revelar um pretexto para mais um embate entre os calvinistas e seus opositores internos. Para amenizar o choque que ocorreu o próprio Calvino teve que participar envolvendo, para facilitar o ajuizamento final, as igrejas reformadas de Zurique, Berna, Basiléia e Schaffhausen.
O epílogo foi à condenação à fogueira de Servet e dos seus livros, executada no dia 27 de outubro de 1553, em Champel, quando o medico espanhol, recusando a extrema tentativa de Farel de lhe salvar a vida se abjurasse suas crenças, morreu dignamente na fogueira.
No ano de 1554 o partido de Calvino venceu as eleições, e com este sucesso ele se sentiu suficientemente fortalecido para defender o direito de matar os hereges. Apresentou sua tese através do tratado “Defensio ortodoxae fidei”. Entretanto, a sua tentativa causou tanta revolta que nem mesmo os testos que Theodore de Bezé escreveu em sua defesa tiveram sucesso, a morte de Servet havia sido realmente a ultima gota d´água. A paz mais uma vez foi coordenada por aquele que se tornaria o herdeiro espiritual de Calvino, Theodore de Bezé, com seu escrito “De haereticis a civili magistratu puniendis”.
Ouve uma ultima tentativa de golpe, mais uma vez provocada pelos opositores de Calvino, que faliu em 1555, mas o resultado deste evento teve um lado bom: foi concedida à cidadania a todos os refugiados franceses, inclusive a Calvino que a obteve em 1559. Nesta fase a quase totalidade dos pastores era de origem francesa.
Em 1557 as cidades de Genebra e Berna assinaram um pacto de aliança e em 1559 foi fundada a Academia de Genebra, cujo reitor, Theodore de Bezé, formou estudantes em artes liberais, línguas bíblicas e teologia. Entre estes, depois que retornaram a seus países de origens, alguns se tornaram reformadores famosos como foi o caso de John Knox na Escócia. O próprio Calvino foi chamado para colaborar, através do rei Eduardo VI da França - 1547-1553 - e do Conde de Somerset, seu tutor, na revisão do “Book of Common Prayer”, o livro de orações da igreja anglicana, na introdução da Reforma na Polônia.
Calvino trabalhou com afinco até o dia da sua morte que aconteceu no dia 27 de maio de 1564, aos 55 anos. Atendendo ao seu pedido, foi enterrado em local desconhecido para impedir que fossem realizados cultos sobre sua tumba.
Na sua doutrina Calvino adotou muitos conceitos do luteranismo:
• “sola scriptura” A fé só encontra seu fundamento na palavra de Deus que é refletida nas Sagradas Escrituras.
• “sola fide” O homem não pode, da forma mais absoluta, participar da própria salvação, uma vez que esta não depende da sua obra, mas da sua fé.
• “sola gratia” Pela sua graça, Deus magnânimo salva o homem pecador através do Cristo.
• “sola Deo Gloria” A obediência à vontade de Deus deve ser absoluta, porque Ele é o soberano de toda a criação e determina o curso de todos os acontecimentos.
Desta convicção derivou a doutrina da pré-destinação: Deus, de grandes e eternas sabiedade, misterioso, portanto incompreensível, estabeleceu que para alguns homens está destinada a vida eterna, e para outros a danação eterna.
Para a vida eterna eram predestinados, segundo Calvino, a comunidade dos santos e dos fieis que se comportavam corretamente participando da vida publica, que obedeciam às autoridades e que desejavam participar da Santa Ceia.
Além disso, Calvino como Lutero, consideraram validos sós os sacramentos do batismo e da eucaristia por testemunharem a graça de Deus, e não tão somente cerimônias comemorativas como pretendia Zwingli. Sendo que em relação ao primeiro sacramento conseguiu justificar o batismo das crianças - em contraposição aos anabatistas - e sem ter que recorrer à tradição histórica ou ao conceito do pecado original que a igreja católica havia desenvolvido para justificar o batismo. Para Calvino, se nas escrituras estava escrito: “deixais que os pequeninos venham a mim”, negar o batismo às crianças, não só seria negar a misericórdia divina, mas um pecado contra Deus.
No entanto, em relação ao debate a respeito da efetiva presencia de Deus na eucaristia, Calvino considerou que no sacramento da comunhão há uma real participação da carne e do sangue de Jesus - mesmo se isso não significava a sua presencia real porque ele só podia estar no céu. Este posicionamento de Calvino situava-se entre a consubstanciação de Lutero - a substancia divina coexiste com a substancia do pão e do vinho, e o simbolismo de Zwingli - a ceia do Senhor é tão somente uma comemoração da morte de Cristo, portanto a sua presencia é espiritual.
Calvino transformou Genebra a tal ponto que por um lado foi chamado “o ditador de Genebra” e do outro mereceu de John Knox a seguinte declaração: “Genebra é a mais perfeita escola de Deus sobre a terra desde os dias dos apóstolos até hoje”.
Calvino costumava dizer aos que não aceitavam as suas disciplinas: “então sugiro que construam uma cidade onde vocês possam viver como queiram, se viver aqui, sob o jugo do Cristo, não vos interessa”.
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