Concomitantemente á reforma de Lutero, que se transformou no Luteranismo, e mais enfaticamente depois da sua morte, muitas dissidências protestantes nasceram e se desenvolveram, forjando a linhagem de credos religiosos - dos quais muitos se perpetuam até hoje - a partir de interpretações diferenciadas dos mesmos textos bíblicos. Interpretações estas que só foram possíveis porque os teólogos que por elas se responsabilizaram, cada um a seu modo, concluíram que haviam tido uma intuição divina, e através desta, uma melhor percepção para entender a vontade do Altíssimo. Exatamente como na epoca em que imperava o Gnosticismo, que como vimos, era uma filosofia religiosa cujos idealizadores, cada um a seu modo, também pretendiam ter um conhecimento completo de Deus.
Vestindo roupas escuras dos monges Agostinianos, Martim Lutero, diante dos príncipes, dos prelados, dos teólogos e do próprio imperador Carlos V - reunidos na cidadezinha de Worms as margens do Reno, na Alemanha – aguardando para receber a ultima oportunidade de se defender da acusação de heresia, com certeza ofereceu uma cena dramática no momento em que, depois de dois dias de dissertações, negou, como era previsível, abjurar suas teses, e disse: “Hier stene ich, ich knn nicht anders goot helfe mir, Amen” - permaneço firme, nada mais posso fazer. Que Deus me ajude, Amen.
Que tenha efetivamente concluído com estas palavras como diz a tradição, mesmo se é negado pelos historiadores mais rigorosos, pouco importa. Lutero havia oficialmente colocado em duvida, citando a própria Bíblia, a autoridade papal, e o tinha feito diante do imperador do Sagrado Romano Império. Era o dia 18 de abril de 1521.
A dieta Imperial - assembléia Política onde se discutem os interesses do Estado- convocada a Worms, havia sido concedida por Carlos V, pela pressão exercida por Frederico o Sávio - príncipe eleitor da Saxônia - mesmo se o Papa Leão X já havia excomungado Lutero quatro meses antes no dia 3 de janeiro.
As audiências postergaram-se privadamente até o dia 25 de abril, quando depois disso o frade agostiniano deixou a cidade protegido por um salvo-conduto com validade de 21 dias. A sentença, entretanto, já havia sido decidida e Lutero passara a ser considerado um fora da lei por decreto imperial que veio a ser conhecido posteriormente como o “Edito de Worms”.
Aproximadamente um século antes, às margens do lago de Constança - lago formado pelo rio Reno entre a Suíça, Áustria e Alemanha - o reformista “jan Hus”, reitor da Universidade de Praga, havendo recusado de forma idêntica abjurar suas teses diante de “Sigismundo” - Imperador da Hungria e Alemanha - mesmo tendo recebido um salvo-conduto, no dia 16 de Julho de 1415 foi pego, excomungado e queimado vivo no mesmo dia.
106 anos depois na igreja algumas coisas haviam mudado, e entre elas, as cisões que se haviam responsabilizado pela nomeação de tres “vigários de Cristo” ao mesmo tempo. Mesmo o papa João XXIII, aquele que tinha ordenado a morte de Jan Hus, depois disso, havia sido deposto.
A dissidência entre Jan Hus e a posição oficial da igreja, pelo menos no que diz respeito às divergências com Sigismundo e João XXIII, atinham-se, como as de Lutero, a motivações de ordem teológica.
O reformador da Boêmia, que havia sido nomeado reitor da Universidade de Carolina, em Praga, sustentava as teses nominalistas, ou seja: a doutrina filosófica segundo a qual o conceito é apenas um nome acompanhando uma imagem individual, enquanto que os Universais - espécie, gênero ou entidade - eram puras abstrações. Ex.: no mundo são aclamadas centenas de “Mães de Jesus”, cada uma com feições, nomes e até cor diferente – é o caso das Madonnas Negras - cada uma delas disputando a fé de fieis diferentes, mesmo se a mãe de Jesus é uma. Enquanto os Teólogos ou os estudiosos alemães, especialmente os que estavam mais perto da corte do imperador, sustentavam que havia uma estreita correlação entre os objetos naturais e as categorias com as quais eram identificados pela mente humana.
A contraposição das duas escolas de pensamento, na época, revestia-se de serias implicações teológicas, mas a diatribe entre Hus e o Papa se acentuou quando este ultimo se viu obrigado a recolher verbas para financiar a campanha militar contra Gregório XII, inicialmente reconhecido pelos boêmios como o legitimo Pontífice de Roma.
Com extraordinária semelhança ao que viria a acontecer um século depois, João XXIII recorreu á venda de indulgências, e Jan Hus, que alem de apaixonado orador, era amado pelo povo de Praga pelas suas constantes criticas aos maus costumes do clero, passou a ampliar seus ataques à cúria romana.
Até então, Hus havia gozado das simpatias da coroa Boemia, mas o novo rei, Venceslau, ameaçado pelo papa João XXIII, deixou de protegê-lo. Em outubro de 1412, Hus, abandonou voluntariamente a Capital e procurou abrigo nos castelos da aristocracia eslava ao sul de Praga. A armadilha em que caiu, em Constança, revelou-se fatal, mas seus ensinamentos haviam se tornado indeléveis entre os boêmios.
Quando se espalhou a noticia da morte de Hus a reação dos nobres Checos, sustentada pela inteira população, foi rápida e decidida. A autoridade do arcebispo católico de Praga foi quebrada e a maioria dos bens eclesiásticos foi confiscada.
A aristocracia conseguiu impor, depois disso, sua ascendência sobre as igrejas locais e, seguindo a tese do teólogo boêmio, seus seguidores, chamados Hussitas, adotaram a pratica de fazer a comunhão com a hóstia e com o vinho, como era tradicionalmente praticado pelo clero. Esta pratica, chamada “ultraquismo”, foi formalizada nos “quatro artigos de Praga” e adotados pela igreja checa a partir de 1420.
Entre 1419 e 1420, nas cidadezinhas ao redor da Capital da Boemia, o movimento Hussita degenerou em forma de protesto pelas castas sociais mais pobres da população. Os que radicalizaram estes conceitos passaram a se chamar “Taboritas” e, guiados por “Jean Ziska”, obtiveram uma serie de sucessos militares até que esta revolução se esgotou em si mesma. Os Hussita, entretanto, jamais voltaram a duvidar dos sacramentos, e seus posicionamentos mais críticos voltaram-se para tomar providencias contra a corrupção da igreja e a limitação da sua autoridade. Era a aurora da reforma luterana.
As teses nominalistas de Jan Hus inspiravam-se, por sua vez, nos estudos de “John Wycliff”, um teólogo inglês, também agredido pela cúria romana, mas que mesmo assim conseguiu passar seus últimos dias amparado por uma aposentadoria eclesiástica.
Wycliff, nascera perto de Richmond, no Yorkshire, Inglaterra, em data não estabelecida mas ao redor de 1330, e as informações relativas à sua juventude são confusas e se entrelaçam com homônimos. Entretanto, sabe-se que estudou em Oxford, provavelmente por conta do “Merton College”. Em 1372 se tornou doutor em teologia e em 1347 se dedicou à sua primeira missão diplomática a serviço da coroa inglesa. Uma carreira diferente daquela que sucessivamente seria seguida por ”Thomas Cranmer” o pai da reforma Anglicana.
Wycliff, com certeza freqüentou ou foi amigo de alguém que freqüentava o circulo de “Giovanni”, Duque de Lancaster, que era admirado por muitos expoentes da aristocracia. No seu “De Civili Domínio” se posicionara não só contra a corrupção do clero, mas também em relação ao fato que era permitido aos sacerdotes manter a legitima propriedade de bens materiais. Alem disso, para Wycliff, a autoridade do rei era superior - no que concerne aos aspectos terrenos - aos da cúria romana.
Excomungado em 1377 pelo papa Gregório XI, Wycliff, ultrapassou então sua posição inicial e começou a questionar os princípios da eucaristia. Neste período, devido ao sucesso que passara a ter entre o povo, o teólogo inglês começou a perder, mesmo se parcialmente, a simpatia dos nobres ingleses, sobretudo entre os “Illordi”, um movimento pauperístico cuja difusão, nas áreas do interior da Inglaterra, se fortalecia graças à constante atividade dos pregadores itinerantes e as freqüentes peregrinações.
Entre os anos de 1380 e 1381 a cidade de Norfolk, no interior da Inglaterra, se inflamou porque se reuniram sob o estandarte de “John Ball, Jack Straw e Walt Tyler” os trabalhadores rurais que se haviam revoltado por causa das taxas que lhe eram cobradas, e por aqueles que, devido à crise, haviam perdido o emprego. Liderados pelos tres, os camponeses chegaram a Londres muito bem organizados com o objetivo de expor suas reclamações. Ouvidos pelo rei Ricardo III, sua alteza inicialmente fingiu que estava interessado em um acordo, mas, quando os trabalhadores estavam se retirando, foram atacados e massacrados por 8.000 soldados a serviço da coroa.
Wycliff, que não tinha participado diretamente da insurreição, foi convocado diante de um concilio reunido em Oxford - como posteriormente aconteceu com Hus e Lutero - e lhe foi pedido que abjurasse de suas crenças e escritos, mas ele firmemente recusou. Considera-se provável, entretanto, que tenha concordado em se retirar para a vida privada porque estava gravemente enfermo. Morreu tres anos depois na sua propriedade de Lufterworth. Depois da sua morte o concilio de Constança, o mesmo que condenara Hus, ordenou que os restos mortais de Wycliff fossem retirados da “terra bendita” – cemitério - disposição que só veio a ser executada em 1428 pelo Papa Martino V.
Com a sua atitude o teólogo de Oxford antecipara a reforma religiosa em alguns aspectos: em relação à essência dos textos sagrados, e na tentativa de traduzir a Bíblia para a língua inglesa, atitude que até aquele momento era firmemente proibida pela igreja.
Os tempos, porém, não haviam amadurecido suficientemente para permitir que o prestigio da autoridade pontifícia pudesse ser colocada em cheque. De fato, inúmeras foram as circunstancias que permitiram a Lutero - um frade agostiniano de origem humilde mas dotado de uma extraordinária agudeza para as questões de ordem teológica - erguer os alicerces e estruturar sobre eles uma reforma radical no interior das instituições religiosas da Europa.
No fim do XIV século o esplendor da corte papal havia atingido um nível até então sem igual e este fausto era suportado pelo afluir, na caixa da cúria romana, dos dízimos e demais benefícios que a igreja gozava em toda a Europa.
O florescer das artes e da literatura, por sua vez, havia provocado uma profunda mudança na relação com os estudiosos, e a partir deste momento os próprios teólogos passaram a assumir uma posição não mais tão segura diante das tradições. A grande maioria daqueles que defendiam as reformas, em seus vários aspectos, não foram estranhos a influencia do humanismo.
Jakob Wimpfeling, a quem no ano de 1510 o imperador Maximiliano I havia solicitado legitimizar um procedimento que marginalizasse a interferência de Roma nas decisões da cúria alemã, alem de ser um teólogo celebre, tinha estudado a fundo os princípios da filologia. Suas pesquisas haviam se estendido até indagar a respeito dos textos de Sto. Agostinho, afirmando, posteriormente, que o autor das “confissões” jamais abraçara a vida monástica - como era afirmado que fizera - depois de uma juventude agitada e ter ouvido as pregações de Sto. Ambrosio.
Ao contrario de Wimpfeling, Lutero não procurou romper com as hierarquias religiosas, a não ser quando as suas argumentações - e a oposição que lhe foi movida por aqueles que estavam perto do Papa - o levaram a desconhecer a legitimidade da ordenação eclesiástica assim como até aquele momento era concebida.
Martim Lutero havia nascido em um bairro de uma cidade rural da Alemanha, Eisleben, nas margens do Elba - o rio que nasce na Boemia e banha a Tchecoslováquia e a Alemanha - no dia 10 de novembro de 1483. Seu pai, Hans, um trabalhador rural muito humilde mas cheios de ambição, mudou-se com a família para Mausfeld logo depois do nascimento de Martim. Suas condições financeiras eram precárias, e por isso, para garantir ao filho e a esposa Margareth uma certa tranqüilidade econômica, aventurou-se na extração do cobre. Aparentemente sua iniciativa teve sucesso porque os registros da paróquia, em 1491, já inseriam a família Lutero entre as mais prosperas da cidade.
Martim, o primeiro filho de uma numerosa prole, foi inscrito na escola de Mansfeld e lá estudou, entre as demais matérias, o Latim. A disciplina era duríssima, mas este aspecto da educação do jovem Lutero influenciou toda a sua vida. Martim prosseguiu seus estudos em Magdelburgo e, em 1498, se transferiu para Eisanch, onde foi recebido por parentes e freqüentou a escola paroquial da Cidade. Hans Lutero, entretanto, tendo conseguido uma situação financeira abastada, havia decidido enviar seu primogênito para a universidade. Lutero assim se viu estudando direito na Universidade de Erfurt.
Esta cidade hospedava na época uma das melhores universidades de língua germânica, mas o jovem Lutero, a quanto consta, não foi um entusiasta da decisão do pai. Bacharelou-se em 1502 e chegou ao magistério em 1505, mas seus interesses o mantinham distante da pratica da advocacia.
Diz uma lenda que, estando perto da cidade de Stotterheim, voltando para Erfurt depois de uma visita a seus genitores, Lutero foi surpreendido por uma tempestade. Nesse momento a força de um raio que caiu perto dele o jogou longe - momento em que teria rogado a Sta. Ana prometendo que, se tivesse sido poupado, teria trocado seus hábitos por aqueles de um monge.
No dia 16 de julho participou do ultimo almoço com seus colegas da universidade e no dia seguinte entrou no Mosteiro dos agostinianos para se tornar frei. Era o ano de 1506. Nesse Mosteiro o aguardava uma vida dura, moldada na oração, no estudo e no trabalho, porque para os monges agostinianos o dia começava as tres da manhã com as preces prescritas para a jornada. Contudo, em 1507, Lutero ordenou-se sacerdote e começou, permanecendo em Erfurt, a estudar teologia. Havia um caminho - asseguravam os doutos - para interpretar os textos antigos, em particular os sagrados, e assim chegar o mais perto possível do seu significado verdadeiro, e Lutero, que havia estudado profundamente o latim e o grego, achou natural segui-lo. Obtido o doutorado em teologia em 1512, conseguiu uma cátedra na Universidade de Wittemberg.
Das dissertações que fizera entre 1514 e 1515 a respeito dos Salmos, e da analise das cartas aos romanos, aos gálatas e aos hebreus, que desenvolvera nos anos sucessivos, emergiu a força interior do novo teólogo, força essa que lhe permitiu enfrentar os momentos difíceis dos anos posteriores.
A tradição afirma que Lutero, enquanto meditava a respeito das “passagens” da carta aos romanos, se deu conta que ai residia à revelação da justiça de Deus porque no versículo 17 do primeiro capitulo se le: “O justo viverá pela fé”.
Em 1514 Lutero tornara-se sacerdote da igreja de Santa Maria e através dos sermões, primeiro timidamente e depois com fervor, passou a expor suas novas teses.
Naqueles anos a igreja romana, apesar do conteúdo da sua estrutura teológica: a exaltação da crença na justiça divina, do homem que devia extirpar de si mesmo o pecado, que devia se doar em favor de seu próximo e todos os demais conceitos que sempre integraram sua teologia, voltava a praticar a venda das indulgências para fazer frente aos graves problemas de caixa provocados pelos seus enormes gastos.
As indulgências permitiam aos fieis obterem o perdão para os seus pecados, independentemente de quais fossem, mas o numero de atitudes definidas como pecado era exacerbado devido ao rigor das leis que a igreja aplicava. Assim sendo, quem as comprava - pagando por elas vultuosas importâncias - concomitantemente também devia orar e praticar outros atos expiatórios.
O responsável pelas vendas das praticas de absolvição para toda a Alemanha era Alberto de Branderburgo, arcebispo e príncipe eleitor de Magonça desde 1515, que havia tomado um empréstimo do Banco Fugger para adquirir do Papa Leão X o titulo de arcebispo que possuía. Para agravar as circunstancias, de acordo com a ótica de Lutero e seus seguidores, contribuiu a atividade de “Johann Tetztel”, um frei dominicano que fizera da venda das indulgências uma profissão, estendendo a absolvição até para os defuntos, desde que a família adquirisse a indulgência prescrita.
A presencia de Tetztel foi registrada com maior freqüência nas cidades de Jueterborg e Zerbst, locais em que utilizava uma tabela de preços para cada pecado que se pedia que fosse perdoado. Para Lutero, era impossível aceitar a garantia de Tetztel e dos demais que como este frade vendiam indulgências, uma vez que afirmavam que ao adquiri-las, alem do perdão ser perdoado, era apagada a dor do remorso da consciência do pecador. Para Lutero, que acreditava que somente a constrição e a angustia decorrente do pecado era o caminho para obter a absolvição da alma, as afirmações de Tetztel eram inaceitáveis, e assim sendo, no dia 31 de outubro de 1517, se dando conta do grande numero de indulgências que estavam sendo vendidas - porque o numero de fieis que continuava a se confessar antes da comunhão reduzia-se cada vez mais - resolveu enviar uma carta para Hieronymus Schulze, bispo de Branderburgo, e outra ao arcebispo de Magonça.
A este ultimo, com a carta, enviou uma copia das 95 teses que ficaram celebres na historia da Europa, porque no mesmo dia ele as expôs na porta da igreja do castelo de Wittemberg. È uma agressão a Deus, dizia Lutero, perdoar os pecados através das indulgências, porque Mateus, em 4:17 diz: “Desde então, Jesus começou a pregar: Fazei penitencia, pois o Reino dos céus esta próximo”.
As indulgências não podem ser aceitas como participes do Sacramento da penitencia, como a igreja quer que seja - afirmavam os primeiros parágrafos da carta - e mais adiante: o Papa não pode perdoar culpa alguma. E, estendendo-se em outras criticas, afirmava que a construção da Basílica de São Pedro, em Roma, era um interminável poço de despesas.
Esta atitude, em si mesma, poderia ter sido suficiente para tornar Lutero objeto da inimizade da alta cúpula eclesiástica, entretanto, a reação inicial de Roma foi muito suave. Contudo, enquanto as autoridades pontifícias se limitaram a lhe recomendar mais prudência e moderação, o frei Tetztel, em janeiro do no seguinte, denunciou Lutero na congregação da Ordem dos agostinianos, buscando, concomitantemente, o apoio dos dominicanos. Lutero, então, não mais se conteve, e no mesmo ano publicou seus novos tratados: “As Resoluções”, a “Indulgência e a Graça”.
Pressionado pelos dominicanos alemães o papa Leão X enviou no mês de agosto daquele ano o juiz pontifício “Girolamo Ghinucci” e o teólogo “Silvestro Mazzolini” para resolver o problema. O “Bispo de Roma” não tinha, aparentemente, interesse em perseguir Lutero, porque este gozava da estima e proteção de “Frederico o Sábio”, rei da Saxônia e príncipe eleitor do Sagrado Império Romano, necessário, nos cenários políticos da corte papal, para impedir a subida ao trono do futuro “Carlos V”.
Como os dois delegados pontifícios enviados a Lutero não conseguiram encontrar uma solução, foram sucedidos pelo cardeal “Tommaso di Vio Gaetano”, teólogo e general da Ordem dominicana. Em vão, e enquanto o equilíbrio político se enfraquecera com a morte do imperador Maximiliano I, Karl Von Militz, um colaborador de Gaetano, propôs a arbitragem do arcebispo de Trier.
As experimentações diplomáticas dos emissários de Roma não só se encerraram sem sucesso, mas, pior do que isso, despertaram a atenção do ambiente eclesiástico para uma “ferida” que até então era desconhecida. Outros teólogos de renome como o de Lutero foram envolvidos, Karlstadte e Erik, por exemplo, mas por fim cada um deles assumiu uma posição diferente, enquanto a tese daquele que viria a ser o grande reformador religioso assumia conotações cada vez mais radicais.
No dia 15 de julho de 1520 a “Bolla” pontifícia “Exsurge Domine” impunha a Lutero duas condições: ou se retratava – e lhe davam 60 dias para fazer isso - ou enfrentava o “anátema” papal.
Lutero não se curvou e, enquanto no ano seguinte o cardeal “Girolamo Aleandro”, o novo núncio pontifício, ordenava que seus livros fossem queimados, o frei agostiniano continuava a ganhar cada vez mais apoio e solidariedade. Por fim, no dia 3 de janeiro de 1521 veio o ato oficial que excomungava Lutero, colocando-o, por conseguinte, diante da “Dieta de Worms”.
Lutero, mesmo assim, continuava contando com o amparo de Frederico da Saxônia e a sua causa passara a contar com outros aliados: teólogos e humanistas como Martim Butzer, Johan Hussgen - conhecido na tradição Latina como “Oecolampadius” e Philipp Schwarzer, que passou para a historia com o nome de “Melanchton”.
Melanchton nascera em Bretten, no Baden, o dia 16 de fevereiro de 1497 e era neto do exegeta e humanista Johannes Reuchlin. Com treze anos entrara na Universidade de Heidelberg e estudara profundamente o grego e o latim, alem da retórica e astronomia com Courad Helvetius, outro cientista de renome na época.
Melanchton bacharelou-se em 1511, transferiu-se para Tubinga e das ciências transferiu seus estudos para os clássicos: Virgilio, Terenzio, Livio e Cicerone, um estudo que o levou diante da teologia, e depois disso, às sagradas escrituras. Um caminho similar ao de Lutero.
A relação entre Melanchton e Lutero começou a se estreitar em 1518 quando o primeiro obteve uma cadeira na Universidade de Wittemberg.
Foi o próprio Lutero a encorajar Melanchton a se dedicar à teologia, e foi este que mais tarde se tornou um dos maiores defensores de Lutero porque se transformou em um dos mais ativos advogados da reforma religiosa. Defendeu em toda a Europa suas teses - marginalizando as implicações socialmente mais perigosas quando estas passavam a alimentar os movimentos radicais dos camponeses - procurando, ainda, estabelecer pontos comum com os movimentos reformistas que estavam em curso na Suíça e na Inglaterra.
Lutero, desta forma, estava se transformando em um perigo latente para a estabilidade da igreja, e por este motivo, depois da Dieta de Worms, enquanto se deslocava com o salvo-conduto, entregou-se à proteção do eleitor da Saxônia. Este, o fez raptar ao longo da estrada e o levou em segurança para a fortaleza de Wartburg, impedindo que os emissários pontifícios o arrestassem. Desaparecendo, considerou-se que havia sido morto, e Frederico o Sábio colaborou para que essa noticia se espalhasse para acalmar os ânimos, enquanto na quietude de Wartburg Lutero aproveitava seu tempo para fortalecer suas idéias, tendo adotado, para se preservar, a identidade de Junker Jorrg.
Foi durante o tempo em que permaneceu protegido nesta fortaleza que em onze semanas concluiu a tradução do Novo Testamento do grego para o Alemão, realizando, assim, uma obra que era rigidamente proibida pela igreja e que se transformou em uma contribuição fundamental para a reforma.
O Novo Testamento, com a ajuda de Melanchton, foi publicado em 1522 e doze anos mais tarde a Bíblia inteira foi traduzida e imprimida na língua alemã. Naquele mesmo ano, depois que Andréas Bodenstein - melhor conhecido como Karlstadt - conquistara o controle de Wittemberg, Lutero retornou à cidade em que afixara na porta da igreja do castelo, em 31 de outubro de 1517, as suas proposições contra a indulgência.
A reforma havia se espalhado sustentada pelos governos das cidades-estado, por alguns príncipes, pelos grandes feudos alemães e pelos colonos, mas entre estes últimos alguns grupos se degeneraram a ponto de exigir que os próprios protestantes interviessem contra eles. Entre os movimentos protestantes mais radicais, que até então não se haviam manifestado por medo da inquisição, o mais celebre, liderado por Thomas Muentzer, aproveitou a abertura de Lutero.
Não são muitas as informações a respeito de Muentzer. Deve ter nascido por volta dos anos 1485-1490, em Stolberge, estudado em Lipsia e Frankfurt até conhecer Lutero em Wittemberg e abraçar a sua tese.
Lutero, que inicialmente confiara na ajuda deste teólogo, em 1520 o enviou à Zwickau como pastor. Foi um erro, porque nesta cidade, como sucessivamente aconteceu em Alstedt, suas idéias excessivamente radicais deram origem a sermões que não só não foram aceitos, mas provocaram a sua expulsão das duas cidades. Este teólogo, que desde o inicio começara a se distanciar das teorias de Lutero, em pouco tempo tornara-se tão radical que acabou sendo expulso também da cidade de Muelhausen. Revoltado, uniu-se abertamente à revolta dos colonos.
Lutero, que depois de seus feitos não voltara mais a vê-lo, em um discurso o condenou porque os bandos de colonos que ele liderava disseminavam o terror, matando e roubando indiscriminadamente. Estes grupos, mais tarde, foram vencidos e eliminados e Muentzer, que havia sido aprisionado por liderar estas massas, no dia 25 de maio de 1525 foi condenado à morte e decapitado.
A reforma, mesmo sofrendo estes impactos negativos, tornara-se irreversível e se espalhara por muitas cidades da Europa Central: Erfurt, Esslingen, Frankfurt, Moluse, Nuremberg, Ulm e Worms. Conseqüentemente nestas localidades, assim como em Basiléia, Berna e Constança, o poder papal passara a ser uma mera lembrança,.
Nesta ultima cidade, naqueles anos, emergia a figura de Ulrich Zwingl, um teólogo originário de Wildhaus, na Suíça, que influenciado pelas reformas, mesmo se estudara e se formara em Viena, conseguira ter, por intermédio de seus escritos, a fama de estudioso. No entanto, estas suas primeiras tentativas literárias tinham mai aptidões políticas do que religiosas, atividades estas que de certa forma já exercera, porque na campanha militar de 1513 e 1516 acompanhara as armadas Suíças como Capelão.
Até 1516 havia evitado se pronunciar a respeito dos seus temas porque estes poderiam ter lhe trazido dificuldades com as hierarquias da igreja, assim, quando nos anos seguintes se colocou contra a cúria romana, ninguém esperava por isso. A Sede Pontifícia, em 1518, o encarregara de assumir a paróquia de Muenster, e foi ai, como pároco desta igreja, que seus conflitos com a tradição eclesiástica começaram. Logo se manifestou contra o celibato do clero, e como Lutero também passou a formular idéias que poderiam ser taxadas de heréticas. Posteriormente, elevado a predicador da Catedral de Zurique, aproveitou a ocasião e no dia 1 de janeiro de 1519, Zwingl, inspirado no Evangelho de São Mateus, também deu seu primeiro passo para a reforma. Anos depois, em 1520, renunciou à pensão que recebia do Vaticano e dois anos mais tarde não só havia rompido definitivamente com a cúria romana, mas conseguira a condição de controlar o concilio que detinha o poder político de Zurique. Assim, ao arcebispo daquela cidade, não restou alternativa a não ser aquela de solicitar aos cidadãos que o obedecessem. Foi este concilio que no dia 29 de janeiro de 1523 aprovou as 67 teses de Zwingl para sustentar a sua reforma. No entanto, em muitos aspectos, seus pontos de vista diferenciavam-se sobremaneira dos que eram defendidos por Lutero.
Entre 1524 e 1525, as antigas instituições eclesiásticas daquela cidade Suíça foram definitivamente declaradas sem validade, e, em decorrência, foi abolida a penitencia, as peregrinações e a extrema unção. A revolução de Zwingl foi tão radical que até os órgãos que eram utilizados nas igrejas foram destruídos.
Contra Zwingl e seus seguidores, nesta epoca, estavam se organizando os cantões católicos, e entre eles, Schwyz e Unterwalden, mas a ação destes teve o resultado oposto ao que esperavam: a reforma estendeu-se por toda a Confederação.
Estas mudanças terminaram por alarmar o rei da França, Francisco I, católico, que no dia 9 de outubro de 1531 declarou guerra a Zurique. Zwingl dois dias depois foi vencido e morto em batalha, perto de Kappel, e após nova derrota das forças reformista, a paz voltou a reinar. Contudo, mesmo se os católicos demonstravam uma certa indulgência, as lutas não haviam terminado.
Um caminho diferente foi trilhado por João Calvino que, por ter nascido em 1509, era o mais jovem entre todos os reformadores. Descendente de uma família da burguesia média de Noyon, na Normandia, Calvino transferiu-se para Paris em 1523 com 14 anos. Os textos de Lutero já eram difundidos na Europa, mas, mesmo se as teses reformistas eram discutidas na Sorbonne - Universidade de Paris onde Melanchton havia intervindo - os interesses dos jovens estudantes franceses da epoca privilegiavam as discussões das antigas dissertações de Sêneca. Só mais tarde, improvisamente, ouve a conversão às novas idéias reformistas. Isso aconteceu em 1529.
Provavelmente, Calvino - que jamais havia sido um católico fervoroso - optou para se aliar a posição adotada por outros membros da sua família. Em 1528 inscreveu-se na faculdade de direito de Orleans e depois prosseguiu seus estudos em Bourges. Nesta cidade fronteira, Margarida d´Angouleme, irmã de Francisco I, rei da França, havia organizado uma pequena corte freqüentada por diversos estudiosos reformistas. Neste grupo, provavelmente, Calvino encontrou os estímulos necessários que o levaram a abraçar a fé protestante. As circunstancias, no entanto, não eram as que mais favoreciam a sua decisão, porque Francisco I havia adotado procedimentos particularmente duros para os que viessem a serem acusados de heresia. Apesar disso - pelo menos segundo a tradição - Calvino, doutor em leis formado em Orleans, compôs uma oração a respeito da filosofia cristã. Era o ano de 1532 e, quando o trabalho de Calvino foi publicado no dia de todos os santos, o jovem teve que tomar o caminho do exílio. A idéia de retornar à sua pátria porem não o abandonou, e, em 1535, através de uma carta redigida no dia 23 de agosto, solicitou ao soberano Francês que abraçasse a nova religião. Seu apelo naturalmente não foi acolhido, mas seu texto, mais tarde, contribuiu para que fossem dados os primeiros passos rumo às novas instituições: o escrito, publicado em março de 1536, expunha as idéias sobre as quais se apoiavam os princípios do calvinismo. As peregrinações de Calvino levaram o jovem reformador a Genebra, abandonada alguns anos antes pela família Savoia porque havia sido vencida em 1527 por um concilio citadino de tendências protestantes.
Nesta cidade Suíça, que na época devia contar com aproximadamente 15.000 habitantes, as idéias do jovem francês só passaram a ser praticadas definitivamente depois de 1537, quando a assembléia municipal aprovou sob sua influencia os artigos da nova legislação. No que tangia à religiosidade, entretanto, Calvino definira uma disciplina muito severa: previa a instituição de um censor, um livro para o catecismo das crianças e severos procedimentos para os transgressores. Mudava o nome, o endereço, mas o caráter dogmático permanecia o mesmo. A população, no entanto, não acolheu com bons olhos as novas disposições e, sucedendo-se a uma situação que chegou perto de uma revolução civil, em 1538 o concilio condenou Calvino ao exílio.
Calvino foi para Estrasburgo onde continuou sua atividade reformista, e somente retornou a Genebra tres anos depois. Sua volta, porem, deu-se em segredo, porque as paixões políticas que haviam dividido o concilio ainda não haviam arrefecido. Apesar do risco que corria diariamente, se reconhecido estava sujeito a ser exilado novamente, ou até uma penalidade maior, soube ser paciente e aguardou o momento propicio. Este chegou mais de dez anos depois, em 1552, quando o mesmo concilio que o havia exilado, reconheceu nas suas instituições teológicas os princípios de uma doutrina sadia.
Ouve uma ultima tentativa de oposição a Calvino, e esta aconteceu em 1555 sob a inspiração de “Ami Perrin”, mas o tentâmen faliu.
As divergências entre Calvino e a comunidade protestante de Genebra não foram uma exceção, porque também entre Lutero, Calvino e Melanchton - mesmo se haviam sido tenazes opositores de Zwingl, começara a haver dissensão.
Lutero, que anteriormente havia feito o voto de celibato, mesmo defendendo a tese que os sacerdotes deviam ter esposa, casou-se no dia 23 de junho de 1525 com Katharina Von Bora -16 anos mais jovem do que ele - que lhe deu seis filhos. O matrimonio, porém, foi celebrado sem que Melanchton o soubesse, contudo, mesmo se o fato causou pequenos transtornos, a amizade entre os dois teólogos alemães se manteve até o fim dos seus dias. A reforma, no entanto, continuava ameaçada por Carlos V
A primeira Dieta Imperial, depois do encontro de Worms, aconteceu na cidade de Speyer em 1526, e nesta, foi permitido que os príncipes alemães deixassem seus súditos escolherem o credo que desejassem: continuar com a obra reformista ou se manterem leais à fé católica. Mas, quatro anos depois, por ocasião da Dieta de Augusta, as relações entre os protestantes e católicos haviam se deteriorado tanto, que os estados do Império que haviam adotado o protestantismo foram obrigados a constituir a liga Smalcaldica para se defenderem.
Em 1546, depois da morte de Lutero acontecida no dia 18 de fevereiro em Eisleben, aconteceram os primeiros choques armados que levaram ao conflito conhecido como a “guerra Smalcaldica”, conflito esse que se concluiu no ano sucessivo com a queda de Wittemberg. A Europa, mesmo assim, já se dividira profundamente entre os que seguiam a reforma e os que continuavam fieis à tradição católica romana. Até a Inglaterra, que em um primeiro momento permanecera fiel a Roma, estava se voltando para o protestantismo.
O primado da cúria romana - pela primeira vez na historia ocidental – passava a ser abertamente criticado e discutido. À corte papal não permanecia nenhuma alternativa a não ser aquela adotada no concilio de Trento: tentar organizar a contra-reforma.
No dia 13 de setembro de 1548 o exercito comandado pelos Augsburgos invadiu Constança - enfraquecida por longos meses de assedio - e desta forma a cidade perdeu os privilégios que lhe haviam garantido a liberdade de credo. Por conseqüência, os chefes do concilio protestante que haviam liderado a luta contra o império, foram banidos. Em Magdelburgo, ao contrario, que conseguiram resistir ao exercito de Carlos V e dos príncipes aliados, em 1551 celebrou-se o compromisso - ratificado por um tratado - que lhe garantia a liberdade religiosa.
No mesmo período, na Inglaterra, os que desejavam seguir a corte pontifícia se digladiavam com os que defendiam os princípios da igreja Anglicana. A difusão da reforma, nos anos que sucederam à morte de Lutero, dividiu profundamente a Europa e serviu de pretexto para as guerras que aconteceram entre as grandes e pequenas forças do continente, enquanto em Roma, o papa e seus cardeais, se esforçavam para recompor a autoridade perdida, individualizando, no caminho conciliar, a solução a ser seguida.
Os primeiros sinais que delineavam um grande conflito, justificado exclusivamente por interesses religiosos - a exceção feita aos choques entre os movimentos mais radicais da reforma - aconteceram no período imediatamente sucessivo à Dieta de Augusta. Entre o dia 22 e 30 de dezembro de 1530, em Smalcalda, os príncipes alemães e os delegados das cidades que haviam abraçado o protestantismo, reuniram-se para assinar um tratado de mutuo socorro para garantir a liberdade religiosa.
A necessidade deste tratado havia sido provocada pela pressão que Carlos V fizera nos últimos meses, convencido que estava que a ameaça militar era a melhor estratégia para reconduzir à obediência os que continuavam defendendo a heresia luterana. O imperador, contudo, não soube avaliar a força das convicções dos protestantes, e assim, sem o perceber, contribuiu para a precipitação dos eventos.
No dia 27 de fevereiro de 1531 a liga Smalcalda tomou todas as providencias para garantir aos luteranos uma sólida posição defensiva. A liga contava com o apoio de Filipe d´Assia, do príncipe eleito João da Saxônia e seu filho João Frederico, de Felipe, Duque de Brunswick-Luenenburg, e das cidades de Estrasburgo, Ulm, Constança, Brema, Magdelburgo e muitas mais. Alguns meses depois a liga foi fortalecida com a adesão de Lubeca, e na Baviera, no dia 24 de outubro, outros grupo se aliaram. Em 1536, Frankfurt, Augusta e os duques de Wuatemberg e Pomerania ampliaram a força da liga protestante. Em 1538 a Dinamarca também garantiu o seu apoio.
Nestes mesmos anos, para fazer frente ao perigo constituído pela federação dos estados protestantes, em Nuremberg, com a benção de Carlos V, foi constituída a liga católica. Era em Roma, entretanto, que a diplomacia dos estados europeus e das facções em luta se defrontavam com o mais delicado e decisivo argumento: a convocação de um concilio.
Diversas tentativas haviam sido feitas neste sentido nos anos anteriores, e sempre haviam sido os protestantes a solicitar que as teses da reforma fossem discutidas em uma assembléia, mas o papa Clemente VII continuava a se opor, ate que, atendendo a uma solicitação do imperador, a proposta foi aceita. Contando, porém, com a contrariedade de Francisco I, rei da França, e a indiferença de Henrique VIII da Inglaterra, cujos delegados deliberadamente, não enviaram a Roma a sua posição definitiva.
Com a morte de Clemente VII, acontecida em 1534, e a eleição ao papado de Paulo III, o equilíbrio político assumira um posicionamento definitivo. Alessandro Farnese, o novo papa, diante do mesmo conclave de cardeais, defendeu a necessidade – até então tão longamente discutida - de convocar um concilio, e, o dia 13 de novembro de 1534, diante de todos, retomou a proposta.
Na cidade de Roma foram reunidos os mais importantes teólogos e eclesiásticos que haviam permanecido fieis à igreja católica, mas a fratura com os luteranos já não tinha cura. Desse modo, foram eles que não aceitaram a oferta de Paulo III.
A posição da igreja romana, neste meio tempo, tornara-se critica também na Inglaterra, onde, as continuadas tribulações de Henrique VIII, revoltado porque sua esposa não lhe dava um filho macho para garantir a continuidade da sua dinastia, gradualmente, o levaram a romper com Roma.
Henrique VIII, filho de Henrique VII, unira-se em primeiras núpcias com Catarina de Aragão, filha de um rei, como mais tarde sustentaram seus defensores, e prima de Carlos V. Para que o matrimonio se realizasse, porém, havia sido necessária uma autorização papal - editada por Julio II - porque Catarina havia desposado em primeiras núpcias o príncipe Artur, filho primogênito de Henrique VII e portanto irmão mais velho de Henrique VIII. Artur, morrera ainda moço, e, se ao futuro Henrique VIII foi concedido tomar como esposa a viúva do irmão, foi porque a união precedente, de fato, não havia sido consumada.
A respeito desta questão se debateram os entendidos de leis do rei da Inglaterra quando, tendo-se apaixonado por uma cortesã, e aborrecido pela incapacidade da rainha lhe dar um herdeiro macho, Henrique VIII solicitou a anulação do seu casamento com Catarina. O obteve, desta vez com papa Clemente VII, mas só depois de uma longa batalha jurídica e a ameaça de limitar significativamente o poder da igreja romana sobre as ilhas britânicas. Henrique VIII casou-se novamente com Ana Bolena, que mesmo vindo a ser mãe da futura rainha Elisabete, estava destinada a morrer no patíbulo sob a acusação de alta traição. O papel de Ana Bolena, apesar disso, foi porem de vital importância para afastar Henrique VIII do papado Roma.
Ao atribuir o poder político a Thomas Cromwell, parente distante do celebre Oliver e conhecido nas tradições populares inglesas sobretudo pela iconoclastia que o levou a decretar em todo o reino a destruição das imagens sagradas, e concedida a autoridade religiosa a Thomas Cranmer, um teólogo amigo de Melanchton cujas teses se aproximavam muitos das luteranas - alem de ser o principal artífice da constituição da igreja Anglicana - a Inglaterra se apressava para ingressar, gradualmente, entre as nações protestantes.
As reformas, contudo, não foram repentinas e o próprio Henrique VIII recorreu, inúmeras vezes, ao parecer de comissões onde os defensores do catolicismo compareciam voluntariamente, com o mesmo numero de seus oponentes. Houve momentos nos quais a própria autoridade de Cranmer vacilou perigosamente, mas, no ano de 1536, a coroa inglesa já havia absorvido grande parte das propriedades eclesiásticas naquele país. Sob o descontentamento do povo, que chegou a ameaçar uma revolta, os Mosteiros foram suprimidos e seus bens, que muitas vezes constituíam verdadeiros tesouros, foram confiscados. Enquanto isso, o parlamento elaborava os decretos que determinavam que a jurisdição papal sobre o clero inglês deixava de existir, assumindo o rei, oficialmente, a igreja Anglicana.
Os mais convencidos defensores da fé católica foram perseguidos como traidores, situação que foi proposta algumas dezenas de anos mais tarde ao longo do reinado de Elisabete I, mas um destino similar golpeou os protestantes que se posicionavam a favor de conceitos diferentes daqueles seguidos oficialmente pela coroa: em 1534, 14 anabatistas holandeses foram levados à fogueira e muitos católicos, no mesmo ano, foram decapitados.
Em 1539 um estatuto composto de seis artigos e aprovado pelo Parlamento com a finalidade de regular oficialmente os sacramentos que deviam ser reconhecidos trouxe mais fôlego para as hostilidades da reforma, mas, para quem quer que fosse que não se conformasse, a penalidade, aplicada indistintamente seja para os protestantes como para os católicos, podia ser até o patíbulo. Não escapou dessa decisão nem a Condessa de Salisbury - prima de Henrique VII - e uma das herdeiras dos Plantageneti, porque foi justiçada no dia 28 de maio de 1541 com a idade de 68 anos.
Neste mesmo período, no Continente Europeu, as divergências religiosas acabaram levando as partes a se enfrentarem pela força, enquanto papa Paulo III se esforçava inutilmente para convocar um concilio que em principio era aceito por todos. Primeiramente tentou organizá-lo em Mantova - mas as exigências que o Duque desta cidade italiana formulou eram inaceitáveis para Roma. Tentou realizá-lo em Vicenza em 1538, todavia, o obstáculo maior desta vez foi colocado por Francisco I. Em fim, depois que o Papa e o rei da França se encontraram em Nizza, decidiram postergar a assembléia até que fosse conseguido um acordo com os príncipes luteranos.
Foi só depois que o papa Paulo III conseguiu falar pessoalmente com Carlos V, na cidade de Luca, no mês de setembro de 1541, que a idéia do concilio finalmente tomou consistência. As cidades propostas mais uma vez foram inúmeras. Vicenza, sugerida pelo imperador, não foi aceita pelo papa. Mantova, indicada pelo cardeal Contarini, membro de uma das mais ricas famílias de Veneza, também não satisfez porque a cidade que contava com a preferência do pontífice era Trento. Não obstante, ainda tiveram que transcorrer alguns anos antes que o concilio pudesse se reunir oficialmente, porque por um lado havia a oposição dos protestantes, com os quais a cúria romana tentava desesperadamente um acordo que mantivesse integra a autoridade do pontífice, e do outro, às maquinações de Francisco I.
Este ultimo, há tempo em luta com Carlos V, não só demonstrava ser inescrupuloso, mas dono da astúcia necessária para desequilibrar qualquer tipo de acordo quando percebia que poderia se beneficiar com isso. Chegara a assinar uma aliança com os Turcos para que estes atacassem o império nos Bálcãs distante do solo francês. Assim como enviara seus próprios embaixadores à corte de Barba-roxa, um árabe que, com uma frota de navios piratas, conseguira estender seu domínio sobre toda a África do norte para sustentar uma campanha militar que havia iniciado contra Genova.
Mesmo se em linha de máxima Francisco I era contrario as reformas, ele tentava tirar vantagens das profundas divergências que existiam entre os príncipes alemães. Assim sendo, tentava obstácular a eventual solução dos conflitos religiosos porque isso lhe era desfavorável, assim como o era para Carlos V, porque o desacordo religioso, na Alemanha, mantinha afastados os protestantes dos grandes feudos. A frente luterana, por sua vez, estava longe de encontrar uma política comum, devido ao fato que no seu interior havia muitas dissidências de natureza teológica, ou, mais explicitamente, de caráter político.
As complexas peripécias conjugais de Felipe d´ Assia, acusado pelos seus adversários de bigamia, como, alias, contemporaneamente acontecia com Henrique VIII depois que casou com Ana Bolena, levaram este a uma posição desconfortável diante dos ataques do príncipe da Saxônia, e a comum fé luterana, entre as duas partes, de nada valeu para amenizar o azedume entre os dois. Mesmo porque o imperador, ainda que tivesse prometido concessões aos protestantes em 1544 durante a Dieta de Spira, enquanto se preparava para a guerra, encarregara seus agentes de colocar mais lenha no fogo de todas as dissidências. Só o avanço dos Turcos, na fronteira oriental, continha o ímpeto de Carlos V de se lançar em mais uma campanha militar.
Depois de algum tempo - quando os Turcos suspenderam momentaneamente seus ataques por se terem envolvido em uma crise dinástica e em uma guerra contra os Persas, e os franceses estavam exaustos pela guerra que se havia prolongado por quase cinqüenta anos - surgiram às condições apropriadas para, em Crespy, no dia 17 de setembro de 1544, ser concluído o tratado de paz.
Cristiano III da Dinamarca, que precedentemente havia aderido à liga de Smalcalda, rescindiu a aliança quando percebeu a indiferença dos príncipes alemães em relação ao seu pedido de ajuda, e no seu lugar aderiu o eleitor Palatino, que, por sua vez, em relação à coroa de Cristiano III tinha muitas pretensões.
De seu lado os príncipes alemães, por estarem cientes que Carlos V se preparava para a guerra, convocaram os membros da liga Smalcalda a Frankfurt e tentaram, inutilmente, apaziguar Felipe d´ Assia e João Frederico da Saxônia. Inúteis também foram os esforços para organizar um planejamento para financiar o iminente conflito, considerando que o imperador contava com a ajuda oferecida pelo Papa, que se traduzia em 12.000 soldados, 500 cavaleiros, um empréstimo de 200.000 coroas e a receita eclesiástica espanhola de seis meses.
No mês de junho de 1546 os príncipes alemães foram convocados a Ratisbona, na Baviera, onde, diante de Carlos V, lhe foi pedido para encontrar um acordo que neutralizasse o desígnio imperial de agressão armada. Entretanto, devido ao oferecimento pontifício, a Baviera, que até então havia apoiado os luteranos, acolheu a proposta papal, e, no dia nove de junho, seus delegados assinaram o acordo com o Papa.
Mesmo o imperador teve que estabelecer ajustes e, mesmo se a Dieta de Ratisbona pode ser lembrada entre os maiores sucessos diplomáticos de Carlos V, em verdade, naquele momento começou a ser abandonado o principio de submissão à autoridade da igreja.
As tensões continuavam, assim como continuava a liga Smalcalda, e até entre os teólogos o assunto atingiu tons de dramaticidade depois da morte do pensador protestante Espanhol Juan Diaz.
Corria o ano de 1546, quando, no dia 24 de maio, o imperador revelou à sua irmã Maria a sua decisão de resolver a pendência através das armas. Quando eclodiu a guerra, a diplomacia da Europa não teve como considerá-la inesperada.
O concilio, aceito por todos como sendo o instrumento para sanar as divergências, havia finalmente sido oficialmente proclamado pelo papa Paulo III para o dia 19 de novembro com a bolla “Laetare Hierusalem”, mas, para por fim a todas as esperanças, os protestantes fizeram questão de desconhecê-lo desde a primeira convocação, apesar de ter acontecido, como havia sido estabelecido, na cidade de Trento no dia 15 de março de 1545.
Foram convidados a presidir a assembléia, na qualidade de delegados papais, os cardeais Giovanni Del Monte, Marcelo Cervini e Reginal Pole, mas a abertura oficial teve que ser postergada para o dia 13 de dezembro, devido a ausência de um grande numero de eclesiásticos que haviam sido convidados para participar.
Para fortalecer a defesa dos dogmas sobre os quais se erige a fé católica, o cardeal Del Monte celebrou, no dia que o trabalho foi iniciado, a missa do Espírito Santo. A segunda seção, realizada no dia 7 de janeiro de 1546, foi prejudicada porque foram poucos os cardeais alemães que conseguiram expor suas opiniões, porque grande parte deles não conseguira deixar suas respectivas sedes devido à inquietude que se alastrava entre os fieis, enquanto o próprio Carlos V começou a perceber que teria que enfrentar a oposição dos príncipes, mesmo se estes deveriam ter lhe permanecido fieis, e a hostilidade cada vez mais radical da aristocracia menor Alemã.
Os luteranos, por sua vez, se encontravam em situação difícil, porque as províncias meridionais deixaram de apoiá-los e a Suíça, até então favorável à sua causa, passara a se declarar neutra. Só Henrique VIII se posicionou inicialmente a favor, mas, ao se dar conta que havia um grande numero de protestantes entre os que apoiavam o imperador, manteve-se acima do muro até o fim.
A única intervenção firme foi à do Papa que com a finalidade de apoiar Carlos V, declarou que considerava a guerra uma Cruzada, e como tal, garantia à indulgência plenária - o perdão de Deus - para todos aqueles que com as armas viessem a contribuir para extirpar a heresia luterana.
A liga de Smalcalda, pelo menos no solo alemão, dispunha uma clara superioridade militar, porque a força imperial dependia exclusivamente das tropas que viriam a ser engajadas na Itália, na Espanha e na Holanda.
Segundo alguns historiadores a disparidade imediata era tal - a favor da liga - que os luteranos poderiam ter convencido Carlos V que a superioridade que ele julgava ter era um sonho, porque, simplesmente, poderia ser derrotado antes que às tropas do exterior chegassem. Mas eles podiam ser tudo menos estrategistas militares. Qualquer plano, entre os protestantes, devia ser submetido à aprovação de um alto conselho, de tal modo, enquanto estes perdiam tempo discutindo o que fazer, os católicos o aproveitaram para organizar-se militarmente.
Schaertlin, o mais audaz dos generais da liga no comando das forças de Ulm e Augusta, havia proposto um deslocamento rápido para assumir o controle das passagens no alto dos Alpes, assim, uma vez isolado o imperador do fluxo das tropas italianas e espanholas - esta estratégia já havia sido adotada pelos generais romanos para impedir a chegada das tropas lideradas pelo irmão de Aníbal - desfechar aos aliados do papa o golpe final. Mas os príncipes alemães, que não haviam abandonado a idéia de utilizar a diplomacia para chegar a um acordo, eventualmente até recorrendo à mediação de Ferdinando o rei da Germânia, não concordaram.
O tempo gasto pelos luteranos para decidir o que fazer, mesmo sendo seu exercito formado por 50.000 soldados e 7.000 cavaleiros - uma força considerável na época - foi habilmente explorado por Carlos V. Este, tendo-se reunido com a armada holandesa de Van Buren no dia 17 de setembro em Ingolstadt, iniciou a guerra.
O tempo passou e, enquanto a escassez de alimentos desestabilizava os dois exércitos, Mauricio de Saxônia, tomando posição a favor dos católicos, atacou as forças de seu primo Giovanni Frederico. Poucas semanas depois, as tropas luteranas que lutavam na Alemanha meridional iniciaram a retirada. Desta região, com a salvaguarda que garantia a própria liberdade religiosa, as cidades protestantes se renderam uma depois da outra, e, em janeiro de 1547, até Estrasburgo havia se dobrado diante da autoridade imperial.
O conflito, porem, prosseguia no nordeste, mas mesmo nessa área as tropas de Carlos V colecionavam vitórias significativas, sobretudo em Colônia, onde a tradição católica foi restaurada e o arcebispo protestante Hermann Von Wied teve que se resignar e renunciar ao seu cargo. Nas outras partes da Germânia o conflito continuava e as vitórias se alternavam entre as partes.
Enquanto na Saxônia a sorte abandonara Mauricio - aliado do imperador - permitindo que seu primo Giovanni Frederico restabelecesse seu controle, Carlos V delineava a sua vitória seja no aspecto político como militar, infligindo ao inimigo severas baixas na batalha de Muehlberg. Destarte, no dia primeiro de setembro de 1547, os príncipes alemães reunidos em Augusta diante do imperador oficializaram sua submissão. Este acontecimento, no entanto, não significava a vitória da causa pontifícia.
Entre o Papa Paulo III e Carlos V, pouco a pouco, haviam surgido incompreensões de caráter religioso que se acentuaram quando este ultimo se deu conta que o Papa, no concilio que estava organizando na cidade de Trento, não tinha nenhuma intenção de usá-lo para reformar a igreja. Assim sendo, simplesmente, demonstrou sua insatisfação não participando dele como fizeram os luteranos.
O pontífice respondeu as ameaças do imperador transferindo o concilio para Bologna - a desculpa oficial foi que na cidade de Trento haviam se registrados alguns casos de peste - enquanto Carlos V fez declarar pelos seus representantes Vargas e Velasco, que permaneciam em Trento, que as resoluções que viessem a ser aprovadas no concilio de Bologna deviam ser consideradas nulas.
O imperador, entretanto, não estava disposto a quebrar sua tradição católica e por isso, mesmo contrariado, procurou conciliar suas razões com aquelas do Papa, mas esta decisão não o impediu de convocar, ele mesmo, uma assembléia para discutir os princípios da fé cristã. Este concilio - que passou para a historia com o nome “ínterim” - acolheu alguns pontos entre os quais o celibato do clero e a comunhão com a hóstia e o vinho, mesmo para os leigos, porque eram tradições católicas não aceitas pelos luteranos.
O concilio de Carlos V, no entanto, deliberara que os princípios sobre os quais se apoiava à igreja e a doutrina cristã, não deviam existir só na Bíblia, mas tinham que ser expostos nos demais documentos que constituíam a tradição, como nos atos dos concílios e nas “Bolla” do pontífice.
Na cidade de Trento e sucessivamente em Bologna, havia sido confirmada a interpretação dos “Sacramentos”, como já eram interpretados pela cúria romana. Desta forma, os trabalhos realizados nos dois concílios - aquele do Papa e o de Carlos V - chegaram a conclusões totalmente diferentes entre si.
Enquanto na Alemanha a paz vigente era muito frágil, porque até então não se encontrara um acordo que satisfizesse o imperador, o papa convocou em Roma os prelados que estavam reunidos em Bologna, suspendendo, no dia 13 de setembro de 1549, os trabalhos do concilio. Depois de pouco menos de um mês, no dia 10 de dezembro, Paulo III morreu e foi sucedido pelo até então cardeal Giovanni Del Monte, que, assumindo o nome de Julio III, retomou as negociações com Carlos V. Convocado novamente o concílio, no dia 14 de novembro de 1550 foi promulgada a Bolla papal “Quum ad tollenda”.
A presidir o concilio foram chamados o cardeal Marcello Crescenzio, o arcebispo Sebastiano Pighino di Siponto e o bispo Aloísio Lipomanni.
Henrique VIII, que havia morrido tres anos antes, fora substituído no trono da Inglaterra por Edoardo VI, e este estava levando seu pais a se distanciar definitivamente de Roma. Enquanto isso, Henrique II, rei da França, que havia sucedido Francisco I depois da sua morte, decidira tomar parte do concilio, enquanto que o imperador e o rei da Alemanha, preferiram enviar seus próprios embaixadores.
As convocações se sucediam, mas as conclusões tardavam. Na trigésima seção, no dia 11 de outubro de 1551, promulgou-se o decreto pertinente à eucaristia em oito capítulos e onze cânones, acompanhado de definições de menor importância que regulamentavam a comunhão nas duas formas e outra para as crianças, e o dia 25 de novembro foi configurado o sacramento da penitencia e tres capítulos foram dedicados à extrema unção.
Se nenhuma concessão na área dogmática, que naquela oportunidade favorecesse os protestantes, estes só receberam um salvo-conduto e, a partir do mês de janeiro de 1552, começaram a se suceder novos encontros com o objetivo de encontrar um acordo que satisfizesse as duas partes. Estas tentativas, entretanto, tiveram que ser abandonadas quando, na décima-sesta seção, o concilio foi suspenso porque na Alemanha as hostilidades haviam recomeçado. Mauricio da Saxônia havia conduzido seus exércitos contra as tropas de Carlos V, mas o conflito se ampliou quando Henrique II, rei da França, se juntou aos príncipes alemães. Estes haviam restabelecido a antiga aliança contra o imperador, que por sua vez não contava mais com o apoio que havia tido alguns anos antes.
As tropas turcas avançavam nos Bálcãs e os franceses continuavam vitoriosos na Itália, mas mesmo assim Carlos V não se desmoralizou e recorreu, mais uma vez com sucesso, ás armas da diplomacia. Libertou Giovanni Frederico da Saxônia prometendo-lhe lhe devolver o trono, ajuntou os príncipes que ainda lhe eram fieis, e, em seguida, aceitou um acordo de paz mesmo se não lhe era muito favorável. O tratado foi assinado em Passau no mesmo ano, ou seja, em 1552, mas os choques armados continuaram por mais dois anos. O escopo dos príncipes luteranos, agora, era aquele de impedir que o imperador Carlos V, exausto, impusesse como sucessor seu filho Ferdinando, convencido que, mesmo não tendo conseguido realizar seus objetivos, poderia chegar a comprometimentos interessantes com os protestantes. Abdicou ao trono em 1555, deixando a coroa, como desejava, a seu filho Ferdinando.
O novo imperador, logo depois, convocou em Augusta uma nova Dieta, para procurar, mais uma vez, amenizar as divergências entre as falanges cristãs. Os protestantes representavam a minoria, mas os católicos não dispunham mais da força necessária para impor a vitória que buscavam e com ela a paz definitiva. Esta, acabou sendo alcançada através de um acordo publicado no dia 5 de setembro de 1555 que ratificava os pontos que haviam sido sublinhados em Passau. Aceitava-se que os territórios protestantes mantivessem suas próprias formas de culto, mas, obedecendo a uma regra: os súditos dos príncipes alemães teriam forçosamente que adotar o credo de seus soberanos, mas estes, em sua maioria eram luteranos.
Naquele mesmo ano o papa Julio III faleceu, sendo sucedido por Marcelo II que reinou por vinte e dois dias. A nova eleição elevou ao papado Paulo IV, uma criatura que desejava levar adiante as reformas sem recorrer ao concilio para isso. Morreu quatro anos depois sem conseguir seu intento. Foi só com o Papa Pio IV, que o sucedeu, que o concilio foi retomado.
Pio IV pertencia à família Médici, de Milão, que era aparentada com os Borromeus, cujo filho, Carlo Borromeu, que naquele tempo era o arcebispo de Milão, era seu sobrinho, sobrinho este que lhe deu a colaboração necessária para que os trabalhos do concilio fossem concluídos com sucesso. O consenso final oficializara através dos seus princípios a tradição eclesiástica que vigeria nos séculos vindouros.
A assembléia, convocada através da Bolla “Ad ecclesiae regimen” no dia 29 de novembro de 1560, se reuniu na cidade de Trento no dia de Páscoa de 1561. Os protestantes, não obstante os esforços da diplomacia papal, não arredaram um só milímetro em relação ao seu posicionamento e, eleito o cardeal Hercules Gonzaga à presidência do concilio, o debate foi retomado. No entanto, com a mesma lentidão de sempre.
Até a décima oitava seção, realizada no dia 25 de fevereiro de 1562, não havia sido aprovada outra coisa alem de um salvo-conduto para alguns representantes luteranos e a publicação de um decreto no qual era inserida uma lista de livros proibidos chamada “Índice”. Mas nas reuniões sucessivas os dogmas e os sacramentos da fé católica foram cuidadosamente discutidos, definindo assim a forma que, com pouquíssimas exceções, se mantém até hoje.
A seção final, a vigésima quinta, teve a duração de dois dias, ou seja, o dia tres e quatro de dezembro de 1563. Ao seu encerramento se seguiram uma serie de decretos que levaram à preparação do “Messale” - o livro que o padre utiliza ao rezar a missa - do “Breviário” - o livro com os ofícios que o sacerdote deve ler todo dia - do “Catequismo” e do “Índice” como já fora antecipado. Procedimentos estes que foram ratificados pelo papa Pio IV através da Bolla “Benedictus Deus” no dia 26 de janeiro de 1564.
Através da ratificação do resultado do concilio pelo papa e da sua regulamentação, a igreja católica apostólica romana conseguira manter uma parte da sua autoridade, mas, já não detinha mais o poder para fechar a porta que levaria, através do Tratado de Westphalia, a reforma religiosa.
A paz que foi alcançada através do tratado de Westphalia encerrou o conflito que foi chamado “guerra dos trinta anos”, uma guerra essencialmente de caráter religioso cujo estopim havia sido o desejo de um povo de poder professar uma fé diferenciada daquela que era imposta pelo papado.
Com este tratado inaugurou-se uma nova ordem internacional, um sistema no qual os Estados se reconhecem tão somente como Estados, sem levar em consideração a fé de seus soberanos. Nasceu assim à comunidade internacional come é entendida hoje que se ergueu sobre as cinzas da derrota do “Sagrado Romano Império”.
Os pontos principais foram tres:
1. Em relação à questão religiosa foi confirmada a paz de Augusta de 1555, estendendo-a a todos os protestantes, tendo sido estabelecido ainda que todos os soberanos deviam respeitar as minorias religiosas e que os bens eclesiásticos em poder dos protestantes até 1626 não deviam ser restituídos à igreja Católica. Os procedimentos atinentes aos aspectos eclesiásticos incluíam a proibição da persecução religiosa na Alemanha, a ratificação da paz de Augusta, estendendo aos calvinistas o principio do “cuius régio eius religio”.A paz de Westphalia determinou o fim de um longo período de guerras religiosas e os sucessivos conflitos armados, na Europa, passaram a ser deflagrados exclusivamente por motivos de ordem política.
2. Em relação as compensações territoriais, a França recebeu a Lorena, Metz, Toul e Verdum; a Suécia o Palatino e algumas cidades que lhe garantiram a hegemonia no mal Báltico. O Palatino e a dignidade eleitoral foram atribuídos ao filho de Frederico V e o Duque da Baviera conservou o titulo de eleitor. Os paises baixos e a Suíça foram reconhecidos independentes.
3. A Espanha, que não havia aderido à paz de Westphalia, na sua guerra contra a França conseguiu ocupar o porto de Dunquerque – Flandres - mas o cardeal Mazarino, aliando-se a Inglaterra, lhe prometeu a devolução destes territórios. No entanto, os espanhóis foram derrotados na batalha de “dune”, perto de Dunquerque em 1659 e Felipe IV, no mesmo ano, foi obrigado a assinar o termo de paz dos Pirineus, sinalizando, assim, o inicio do declínio dos Estrasburgo da Espanha.
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Debalde à Dieta de Worms, em 1521, condenara Lutero como herege, levando-o a refugiar-se em Watburgo, porque as suas idéias libertárias acenderam uma nova luz, propagando-se com a rapidez de um incêndio. A igreja começou a sofrer os golpes mais fortes e mais dolorosos, porque alguns príncipes ambiciosos se aproveitaram do movimento das massas, confiscando-lhe bens preciosos. Numerosos camponeses, empolgados pelos direitos de pensamento livre, iniciaram grande campanha contra a igreja usurpadora, exigindo reformas agrárias e sociais, em nome do Evangelho.
De 1521 a 1555, os centros de cultos europeus viveram momentos de angustiosas expectativas nos bastidores da tragédia religiosa, mas, depois da Concordata de Augsburgos, instituiu-se um regime da mais larga tolerância recíproca.
O direito do exame livre, porém, dividiu a reforma em vários departamentos religiosos, de acordo com a orientação pessoal de seus pregadores ou das conveniências políticas do meio em que viviam. Na Alemanha era o Protestantismo com os partidários dos princípios de Martinho Lutero; Na Suíça e na França era o Calvinismo e, na Escócia, a igreja Presbiteriana. Na Inglaterra, a questão veio a tornar-se mais grave. Henrique VIII, defensor extremado da fé católica, a principio, por conveniência de caprichos pessoais tornou-se o chefe do poder político, assumindo a direção da igreja Anglicana. Na França, os huguenotes se encontravam muito bem organizados, mas surgem complicações de natureza política, e o gênio despótico de Catarina de Medicis ordena a matança de São Bartolomeu, no intuito de eliminar o almirante Coligny. O movimento sinistro, que durou 48 horas, começou em 24 de agosto de 1572, sofrendo a Reforma um dos seus mais amargos reveses. Somente em Paris e subúrbios, foram eliminadas tres mil pessoas.
Os mensageiros do Cristo deploram tão doloroso acontecimento, trabalhando por despertar a consciência geral, arrancando-a daquela alucinação de morticínio e sangue, mas precisamos considerar que cada homem, como cada coletividade, pode cumprir seus deveres ou agravar suas responsabilidades próprias, na esfera de sua liberdade relativa.
A Europa, não obstante o amparo e a assistência dos abnegados mensageiros do Cristo, transportou-se ao século XVII no meio de lutas espantosas agora agravadas com as tenebrosas criações do Tribunal da Penitencia. Quase se pode afirmar que os únicos jesuítas dignos do nome de sacerdotes de Jesus foram aqueles que vieram para as regiões desconhecidas da América, no cumprimento dos mais nobres deveres da fraternidade humana, porque a quase totalidade da Companhia, no Velho Mundo, mergulhou num oceano de tricas políticas, muitas vezes rematadas em tragédias criminosas. As guerras de natureza religiosa estavam longe de terminar, dada a rebeldia de todos os elementos, e foi com penoso esforço que os emissários do Alto conduziram as coletividades européias ao Tratado de Westphalia, em 1648, consolidando as vitórias do protestantismo, em face das imposições injustificáveis do jesuitismo.
Fonte: livro “A Caminho da Luz” pelo espírito Emmanuel
e psicografado por Francisco Candido Xavier.
A partir da Dieta de Worms, que teve origens com a discordância de Martim Lutero em relação à interpretação de alguns versículos bíblicos que contradiziam, segundo ele, o método eclesiástico de perdoar os pecados de seus fieis - a venda das indulgências - a igreja romana que já vinha perdendo sua força - político-estatal-militar - diante da qual até reis e imperadores se curvavam, começou a perder igualmente a capacidade de impor sua religião onde bem queria. E no tempo, a liberdade que foi obrigada a ceder, explorada por inúmeros outros indivíduos, tornou-se o útero que gerou dezenas de religiões cristãs. Estas novas doutrinas - a igreja católica faz o mesmo com o marianismo e carismáticismo - ampliaram seu espaço explorando da forma que julgaram adequada parte dos textos bíblicos, enquanto os não convenientes são esquecidos. Exemplos:
• Em Êxodos 22:25, - Leis morais e religiosas - é dito: Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, ao pobre que está contigo, não lhe serás como um credor: não lhe exigiras juros...Como será então que operam os bancos hebreus, a casa financeira do Vaticano e as áreas financeiras de todas as demais igrejas?
• Em I Corintios 14:34-35 temos: Como em todas as igrejas dos santos, as mulheres estejam caladas nas assembléias: não lhe é permitido falar, mas devem estar submissas, como também ordena a lei. Se querem aprender alguma coisa, perguntem-na em casa aos seus maridos, porque é inconveniente para uma mulher falar na assembléia. Contudo, existem freiras, mulheres pastoras, bispas ou apostolas em muitas igrejas!
Divergências similares, como tivemos a oportunidade de ver, já existiam nos primeiros séculos da era cristã, só que, naquela época, rotuladas de hereges, acabaram sendo destruídas pela incoerência daqueles que priorizavam os testos do Velho Testamento, em detrimento dos verdadeiros ensinamentos de Jesus. Hoje, a “voz” da igreja católica apostólica romana e idêntica à “voz” de todas as demais igrejas.
Contudo, como foi dito, ninguém no interior dos templos discute se os testos das escrituras são lógicos ou alógicos. Simplesmente, consideram-no sob o imperativo da fé, imperativo esse que inúmeras vezes serve para camuflar os “verdadeiros interesses”.
Não buscamos, com estes dizeres, criticar a quem quer que seja, mesmo porque, como sabemos, o livre arbítrio permite a todos trilhar, em relação a qualquer aspecto da vida, a senda preferida. Desejamos tão somente “abrir” para aqueles que estiverem interessados - com o auxilio dos que incansavelmente do plano superior nos estendem as mãos - os interesses escusos que quase sempre estão por detrás da atividade humana.
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